segunda-feira, março 26, 2018

Começar de novo...

"E contar comigo
Vai valer a pena

ter amanhecido..."


Foram precisos pouco mais de dois anos e três meses, para que neste espaço se voltasse a ver algo de novo...
Passou a estar rodeado de mar, como uma ilha deve ser.. Porque eu não passo sem o mar, faz parte da minha assumida condição de ilhéu!
Só quem teve a graça ( e a desgraça...) de viver numa ilha, percebe a forma como o mar nos condiciona...
Desde sempre que me habituei a ouvi-lo... a cheirá-lo... a senti-lo... por isso, faz-me falta...
Olhar o mar, é sempre um recomeço, um começar de novo...
Por vezes tranquilo "parece azeite" como dizem por aqui...
Outras vezes mais agitado, com "ovelhinhas" a aflorar na crista das ondas...
Por fim, bravo, irritado,aterrador, parecendo querer de uma única vez cobrar todas as ofensas que lhe temos feito ao longo de sei lá quantos anos..
Por isso, neste recomeço, neste reencontro, não podia faltar o mar... ponto de todos os meus encontros e desencontros...


"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

Fernando Pessoa, in "Mensagem"




Tiber
Março, 2018

terça-feira, dezembro 01, 2015

Renascimento ou restauração?

Neste dia 1 de Dezembro de 2015, quase quatro anos depois, volto a escrever aqui...
Não é um renascimento... é mais uma vontade de voltar a partilhar neste espaço alguns dos meus sentimentos...
Diria que mais do que um renascimento, é uma Restauração... Restauração de uma vontade, de um desejo, mais uma daquelas partidas que esta nossa estranha forma de vida nos prega...
Durante mais algum tempo voltarei a escrever neste espaço... Talvez menos regularmente, talvez ainda mais intimista, enfim, não sei..
Não será certamente pelo destino é mais pelo prazer que me dá este caminho!

Tiber


quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Esperança na vida

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança


In "Pedra Filosofal" de António Gedeão


O que acontece então, quando se deixa de sonhar?
Quando todos os nossos sonhos se foram esfumando e dispersando tipo bruma aos primeiros raios de Sol matinal?
Quando até perdemos a capacidade de sonhar?
Continuará a vida a fazer sentido quando se vive sem sonhos?
Vida sem esperança, sem sonhos, é uma mera grandeza estatística, contribui apenas para a chamada esperança de vida, mas não serve de nada a quem não tem mais esperança na vida!
E quanto mais o tempo passa a capacidade de sonhar torna-se uma recordação longínqua, deixamos de fazer planos, passamos a viver um dia atrás do outro, sem metas, sem objectivos, sem esperança...
No fundo, arrastamo-nos pela vida, à espera que a morte chegue...

Eu não quero viver assim... tranquilamente à espera... a contribuir apenas para a estatística...
Será que se consegue voltar a sonhar? Voltar a ter esperança na vida?

Tiber

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Liberdade, felicidade, defeitos e feitios

Eu nunca me senti verdadeiramente Livre, fui (e sou) sempre uma espécie de prisioneiro dentro de mim, não consigo tomar decisões, sem pensar mais nos outros que em mim... E com isso nunca faço aquilo que verdadeiramente quero, acabo sempre refém das decisões dos outros..
E depois vem o remorso, a angustia do tempo perdido, de não ter feito aquilo que achava que devia ser feito, a solidão e o pior de tudo aquela sensação de ter passado ao lado da vida, sem nunca ter vivido verdadeiramente!
Estranha forma de vida, esta de ser feliz pela felicidade dos outros, sem nunca ser realmente feliz, de ser livre pela liberdade de outros, sem nunca ser verdadeiramente livre!

Mas agora, não há mais nada a fazer, já não é defeito... É feitio!!!!

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O vaso do meu avô

Recordações do meu avô, tenho-as aos montes, algumas são mesmo lembranças reais, outras são mais difusas, e acrescidas do que quer minha mãe quer minhas tias me iam contando...
De entre elas, lembro-me do Vaso do meu avô:
-Meu avô tinha um daqueles vasos tipo Jarrão salvo erro em porcelana de Vista Alegre, lembro-me vagamente das cores, dos tons de azul...
Ora, eu, criança andava em casa de minha avó a saltar e a correr de um lado para o outro e era alvo de repetidos avisos do tipo "Ah! Rapaz tem cuidado não vires o vaso do teu avô, olha que que é de estimação...", e eu indiferente a esses meros pormenores lá continuava na minha "faina"... mas tantas vezes vai o cântaro à fonte... que um dia nem foi a asa, uma escorregadela, e pimba o vaso sem saber bem como ficou em pedaços... Depois de uma valente reprimenda da minha tia, lá veio a teoria "escondem-se os cacos, pode ser que o avô não dê por falta..." e assim foi feito..
Quando meu avô chegou a casa, eu como era habitual saltei-lhe para o colo, e logo lhe disse: "sabes, eu pati o jazo do vôvõ..." lá se foi o segredo que era coisa que eu não tinha jeito nenhum para guardar...
E só me lembro disto, como se fosse ontem: Meu avô quis ir ver os restos, depois olhou para mim e disse: Não te preocupes, o vaso está ali todo só perdeu foi a forma!
Lembro-me muito desta frase... muitas vezes, quando a nossa vida parece toda partida e virada do avesso, não é caso para desesperar... não perdemos a vida, só mudou foi de forma!
Haja é coragem para mudar a forma voluntariamente e não esperar que tudo se parta e faça em cacos antes...


domingo, novembro 28, 2010

O gato amarelo....

Há um mês atrás, apareceu aqui em casa um gatinho amarelo, veio de fininho, a miar e logo foi decidido que há-de ficar aqui enquanto quiser e se sentir bem....
Ate lá, é da família, com tudo a que tem direito....
Incluindo o nome: Tobias, de sua graça
E foi a propósito do Tobias, que me lembrei de Fernando Pessoa:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes
Que tens instintos gerais
E só sentes o que sentes

És feliz porque és assim
Todo o nada que
és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim
Conheço-me e não sou eu.

sábado, novembro 27, 2010

Começar de Novo

Já estive várias vezes para encerrar definitivamente este espaço.. Por uma razão ou por outra, vou sempre adiando, adiando e depois lá vem o esquecimento que a idade não perdoa...
Hoje foi mais um desses dias.. mas acabei por dar a conhecê-lo a alguém que eu prezo... e gosto muito... E o resultado, foi um espaço de cara lavada outra vez, e o desejo de ir para aqui "postando" algumas coisas minhas, desabafos e histórias que fazem parte de mim e da minha vida...
E é nesta altura, em que somos cercados pela crise e atacados por todos os lados, que me vem a vontade de continuar por aqui...

Sim, porque a culpa é da vontade!


Tiber

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Inquietação

Este fim de semana, aproveitei o dia de sábado para me sentar à frente da Televisão, e vi de uma assentada dois filmes, tipo sessão dupla das 21h, a lembrar as saudosas sessões da meia noite do cinema Quarteto, na segunda metade da decada de 70..

O primeiro, um filme de 2007, com essa extraordinária actriz que é a Jodie Foster: The Brave One, um filme sobre a vingança, que coloca uma grande questão: O que fazer quando a justiça não funciona? Pode alguém armar-se em Juiz e fazer justiça?
Para mim, é óbvio que não, mas o filme levanta várias questões e deixa algumas duvidas no ar....

O segundo filme da sessão: "The Contender" ou, em português "O Jogo do Poder" é também muito interessante, trata no fundo de discriminação, neste caso, discriminação de uma mulher que quer a todo o custo manter a sua vida privada fora da sua vida política, mesmo que isso lhe custe o lugar de Vice-Presidente dos EUA... Mas vai um pouco mais além, mostra uma mulher de princípios, que se recusa a usar os mesmos argumentos e nem sequer se defende dos ataques, porque entende (com razão...) que está a ser discriminada, que se fosse homem essa questão nem se ponha... Põe igualmente a nu, o falso moralismo americano, em que "tudo é permitido" desde que não se saiba... No fim, claro que os "bons" triunfam, mas sai mal do retrato a Política ( e os políticos) norte-americana, pois fica no ar a ideia de que para atingirem os fins, qualquer meio serve... Será que por cá é a mesma coisa? Até tenho medo da resposta...

Foi assim um fim de semana que me pôs a pensar na Justiça e na Discriminação, seja ela racial, sexual, religiosa, etc.. e chego á conclusão, que em Portugal, muitos destes argumentos ainda são válidos...
A Justiça é lenta, e muitas vezes falha, leva-nos ao desespero, ao descrédito e felizmente por enquanto ainda não nos leva a fazer justiça "à revelia", pelas nossas próprias mãos, mas ou se arranja maneira de resolver este problema ou... não sei o que poderá acontecer...

E a Discriminação? Será que existe por cá? Bom, pode não ser muito evidente, mas que existe, existe... e há principalmente muita mulher que a sente... no salário, na maternidade, no emprego etc...

E a responsabilidade acaba por ser nossa que nos acomodamos no nosso bem estar, esquecendo um pouco o que nos rodeia, passeamos muitas vezes com indiferença pelo que se passa à nossa volta, assobiando para o ar enquanto outros sofrem na pele injustiças e discriminação...
O problema é que um dia, toca-nos a nós e que Deus nos acuda... mas como nessa altura Deus não deve ter mãos a medir, tantos são os problemas do mundo, então resta-nos o quê?
E porquê esta inquietação agora? Estou mesmo a ficar velho...

Tiber

terça-feira, janeiro 22, 2008

Vergonha na Cara

Este País não pára de me surpreender... quase sempre pela negativa...
Agora que acabou uma das maiores telenovelas da Vida Real, chamada BCP-O Sr.Presidente, quando pensava que já tinha visto tudo, eis que o BCP, tal como o Euromilhões, acabou de criar mais um "excêntrico" em Portugal, com a vantagem (para ele claro...) de não ter sido necessário preencher nenhum boletim, nem sujeitar a nenhum sorteio... E vai receber enquanto viver (que tenha uma longa vida...) por mês, o equivalente a 97,807 vezes o actual salário mínimo...
Se isto não é imoral, eu vou ali e já volto...
E ninguém diz nada?
E ninguém se indigna? Afinal, onde é a tão falada "República das Bananas"? na Madeira?

E um Governo que queria pagar aos reformados, 9€ (sim, nove euros) em 14 (sim, catorze) modestas prestações de 64 cêntimos, não reage? Esconde -se por detrás de uma pseudo independencia? E digo pseudo porque quando foi para escolher um sucessor não se coibiu de interferir... Mas afinal só funciona num sentido?

Ou como diria meu avô, "Louvado Seja Cristo, mais a Terra que deu disto"!

Neste país, eu já sabia que havia muita gente sem Vergonha na Cara, mas agora há alguém que é a Cara da Vergonha!



Tiber, revoltado!

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Ano Novo, Cara lavada

Pensei sériamente em encerrar este espaço... achava que se tinha esgotado, perdi o "gozo" de aqui escrever...
Súbitamente, resolvi "lavar-lhe a cara"...
Bom, com isso perdi algumas coisas que por aqui andavam, alguns links que aos poucos vou recuperar e se alguém despareceu da minha lista, não desanime, não foi censura, foi azelhice, burrice, ou há boa maneira madeirense: "Meti os pés pelas mãos..."
Mas, voltando ao Cantinho...O que uma "mudança de visual" pode fazer!

Parece que voltei ao início... Voltou o entusiasmo, o interesse, o doce prazer de escrever aqui...
E pronto, pelo menos por mais um tempo, vão ter que me aturar...
Vou continuar a "andar por aqui" (cruzes, canhoto, vade retro Santana!) se calhar mudo o estilo... apetece-me agora falar mais de mim... dizer mais o que me vai na alma...O que estou a ler, que gosto de ouvir e de ver, etc...
Porque será?
Será da idade? Sim, porque do Guaraná não é de certeza...


Tiber

quinta-feira, outubro 11, 2007

São dois para lá, dois para cá

Dois pra lá, dois pra cá

(João Bosco e Aldir Blanc)

Sentindo frio em minh'alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me pergunte mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com guaraná
Ouvi tua voz sussurrando
São dois pra lá, dois pra cá.


Tanta saudade, Elis Regina...
Que me perdoem este súbito ataque de romantismo melancólico, mas ao descobrir este video da Elis Regina, com mais de 25 anos, não consegui resistir...

A Elis Regina, deixou-nos de forma precipitada e precoce, mas como Deus não fecha uma porta sem abrir uma janela, ficou por cá uma miuda, chamada Maria Rita que herdou os olhos da Elis e possui um enorme talento....

Tiber

sexta-feira, setembro 07, 2007

Até sempre Luciano...

Graças a meu avô, habituei-me desde criança a ouvir ópera, musica clássica em velhos discos de 78 rpm, numa grafonola de corda e depois num móvel com gira-discos e rádio Telefunken, entretanto comprado a prestações como era habitual nessa altura e que segundo ele "custou os olhos da cara"...
Foi graças a meu avô que aprendi palavras como Tenor, barítono, soprano, ópera, opereta, etc...Foi ainda através dele e da música que ouvia, mas principalmente das histórias que me contava, sobre os compositores clássicos, sobre as óperas , que fui aprofundando e refinando o meu gosto nessa área...Aprendi a gostar de Beethoven, Tchaikovsky, Mozart, mas também de Turandot, Madame Butterfly, Carmen, Fígaro, etc...


E foi nessa altura que ouvi alguns dos grandes tenores da época Mario Lanza, e Enrico Caruso...
Anos depois, já meu avô não estava (fisicamente) a meu lado , descobri Pavarotti... e, na primeira vez que o ouvi, lembrei-me das palavras que ele me dizia quando ouvia Maria Callas, Caruso ou Lanza: "Quem canta assim, não canta, encanta!."

Meu avô, penso eu nunca ouviu Pavarotti, nunca teve a felicidade de ouvir aquela voz forte, cheia, potente e ao mesmo tempo melodiosa, tranquila, saida da alma, sem esforço, tão natural que dá a impressão de que qualquer um canta assim... resta-me a fé de que talvez um dia nos juntemos outra vez, aí sim a ouvir Lanza, Pavarotti, Callas....

Que Luciano Pavarotti descanse em paz, mas que a sua voz não se cale nunca...

quinta-feira, agosto 16, 2007

A Festa do Monte

Freguesia de Nossa Senhora do Monte
"A origem desta paróquia vem da fazenda povoada que ali tinha Adão Gonçalves Ferreira, o primeiro homem que nasceu nesta ilha e que era filho de Gonçalo Aires Ferreira (V. pag. 21), o mais distinto companheiro de Zargo na descoberta do arquipélago. Como geralmente acontecia, era uma pequena capela o centro em torno do qual se agrupavam os primeiros povoadores, tendo Adão Ferreira levantado ali pelos anos de 1470 uma modesta ermida, que parece ter tido o nome primitivo de Nossa Senhora da Incarnação, passando depois a chamar-se Nossa Senhora do Monte, devido certamente ás condições orograficas do local, que bem justificavam a nova e apropriada denominação. Outros afirmam que a milagrosa aparição da imagem da Santissima Virgem, que logo começaram a chamar Nossa Senhora do Monte, é que deu origem a que a capela tomasse este nome, que se transmitiu ao sítio e mais tarde a toda a paróquia.
A lenda dessa aparição miraculosa vem narrada, nos seguintes termos, no verso das gravuras que representam a pequenina e veneranda imagem: «Ha mais de 300 anos, no Terreiro da Luta, cerca de 1 quilómetro acima da igreja de N.ª S.ª do Monte, uma Menina, de tarde, brincou com certa pastorinha, e deu-lhe merenda. Esta cheia de jubilo, refere o facto á sua família, que lhe dão deu credito, por lhe parecer impossivel que naquela mata erma e tão arredada da povoação aparecesse uma Menina. Na tarde seguinte reiterou-se o facto e a pastorinha o recontou. No dia imediato, á hora indicada pela pastorinha, o pai desta, ocultamente, foi observar a scena, e viu sôbre uma pedra uma pequena Imagern de Maria Santissima, e á frente desta a inocente pastorinha, que a seu pai inopinadamente aparecido, afirmava ser aquela Imagem a Menina de quem lhe falava. O pastor, admirado, não ousou tocar a imagem, e participou o facto á autoridade que mandou coloca-la na capela da Incarnação, próxima da actual igreja de «N.ª S.ª do Monte», nome que desde então foi dado aquela veneranda Imagem.»"

Fonte: Elucidário Madeirense

O Elucidário Madeirense, foi uma obra criada para comemorar os 500 anos da Descoberta da Madeira, e é uma fonte quase inesgotável sobre a História da Madeira, do seu povo, seus costumes e tradições, e claro está sobre as várias lendas que a cultura popular teima em não apagar da memória...

A Nossa Senhora do Monte é a padroeira da Madeira, o seu dia celebra-se a 15 de Agosto, a lista dos seus milagres em benefício da população local, é imensa; o Monte, está para a Madeira, talvez como Fátima para o País!
Ainda sobre a Nossa Senhora do Monte, não resisto a contar a história, do seu primeiro milagre conhecido e cuja origem remonta aos tempos da descoberta:

" Nos primeiros tempos da colonização da ilha da Madeira, havia uma ribeira de água límpida e abundante rodeada de terras férteis que encantou os portugueses que lá chegaram. Mas um dia um senhor poderoso resolveu ter aquela água só para si e canalizou a fonte para as suas terras. A população desesperada, porque aquela água era imprescindível à sua sobrevivência, resolveu fazer uma procissão à Senhora do Monte, implorando para que a água voltasse a brotar naquela fonte. O milagre aconteceu e a água encheu de novo a fonte, mas em quantidade menor do que no início. O povo utilizou então em seu benefício a ideia do desvio da água e, construindo regos ou cales, levaram a água mais longe, tornando férteis muitos campos e quintas. A ribeira ficou a ser conhecida como a ribeira de Cales e o milagre da Senhora do Monte ficou para sempre na memória popular."

A Fonte ainda hoje existe, no Largo do Monte, cujo verdadeiro nome é "Largo da Fonte", e reza a crença popular que quando dela deixar de brotar água limpa e cristalina, a Madeira desaparecerá nas águas do Oceano...

É neste largo, no largo da Fonte, que se realiza o maior arraial da Madeira, a "Festa do Monte" que tem o seu ponto alto na noite de 14 para 15 de Agosto, com as Romagens e as Peregrinações, e termina no dia 15 com a Procissão; a missa solene, este ano é aguardada com alguma curiosidade, pois será celebrada, pelo novo Bispo da Diocese, D. António Carrilho.

Na Igreja do Monte, encontra-se ainda a sepultura provisória do imperador da Austria, Carlos, que faleceu nesta freguesia a 1 de Abril de 1922, e que constitui uma atracção e um ponto de visita obrigatório de muitos Turistas que nos visitam.
Também é da sua vizinhança, junto à escadaria que partem os Carreiros, e os célebres "Carros de Cestos" numa viagem sempre em grande velocidade até ás imediações da cidade.
Em tempos, existiu um Comboio de Cremalheira que fazia o percurso entre o centro do Funchal e monte, mas hoje em dia apenas restam algumas fotografias e um edifício degradado do que foi a primeira 8e única) estação terminal de comboio da Cidade do Funchal.

O Monte, é pois um dos lugares mais bonitos e emblemáticos deste "calhau", pena é que muitas vezes seja desprezado e esquecido principalmente por quem devia ter como supremo interesse o acautelar aquilo que na realidade constitui o nosso verdadeiro património e reflecte o sentir e o pulsar de um povo... esquecer as nossas tradições, "afogar" na modernidade as nossas raízes, desprezar a memória colectiva de uma sociedade é o primeiro passo para o sua desagregação...

Ainda vamos a tempo... Haja vontade...

terça-feira, agosto 14, 2007

Pobres e Mal-Agradecidos...

Ciganos

Tudo o que voa é ave.
Desta janela aberta
A pena que se eleva é mais suave
E a folha que plana é mais liberta.

Nos seus braços azuis o céu aquece
Todo o alado movimento.
É no chão que arrefece
O que não pode andar no firmamento.

Outro levante, pois, ciganos!
Outra tenda sem pátria mais além!
Desumanos
São os sonhos, também...

Miguel Torga


Este país é estranho...
Estranho e mal-agradecido...
No dia 12 de Agosto, se fosse vivo, Afonso Rocha, mais conhecido por Miguel Torga, faria 100 anos!
A data foi comemorada na sua aldeia natal, com a pompa e circunstância merecidas, mas curiosamente sem a presença de um único membro do Governo, sem uma única palavra de ninguém, sem uma menção da Ministra da Cultura... Apenas o Presidente da República se manifestou... ah, e Manuel Alegre, se calhar o último dos verdadeiros Socialistas...
Torga é um dos maiores poetas contemporâneos, como homem, foi sempre um lutador pela Liberdade, com várias obras apreendidas e censuradas e chegou até a ser preso...Premiado várias vezes, recusou receber prémios no Estado Novo... Não merecia esta desconsideração...

Curiosamente, nos programas do 12º ano, acho que Miguel Torga foi esquecido já há algum tempo... Como é grande um país em que nos currículos estudantis não cabe um poeta como Miguel Torga! Se calhar porque outros poetas maiores se "levantam"... é que senão for por essa razão, então é porque a estupidez assentou arraiais no Ministério da Educação...
E assim, vamos continuar a ser pobres... Pobres e mal-agradecidos!



Tiber

sexta-feira, agosto 10, 2007

Jornalistas e Jornalismos...

Ás vezes, quase me sinto tentado a dar razão ao "pai" Alberto...

Alguma comunicação social da Madeira parece andar de cabeça perdida... Alguém acredita que a reportagem de uma estação televisiva, sobre o Rali Vinho Madeira, no dia de abertura da Prova, abriu criticando a Organização, por ter convidado duas equipas femininas para conduzir os carros 0 e 00, com única justificação de que eram Mulheres? Depois lá tentaram disfarçar dizendo que tinham pouca experiência, etc esquecendo-se que ambas já tinham entrado várias vezes como pilotos e co-pilotos em várias provas regionais e nacionais, participam regularmente em provas de pista e que tinham desempenhado exactamente a mesma função no ano passado, sem qualquer problema?
Mas também, se não fosse assim ninguém se lembrava de quem tinha feito essa reportagem... Aconselho a todos, os que gostam de Ralis (e os que não gostam ...) a ver a reportagem feita pelo EuroSport, um exemplo de profissionalismo e de qualidade, sem polémicas, destacando a competição, a beleza das nossas estradas, o bom comportamento do público, etc...

Para quem critica o subsídio dado ao Rali pelo Governo Regional, talvez baste ver aqueles 30 minutos de reportagem, que passaram ( e vão ser repetidos mais duas ou três vezes) em horário nobre no Eurosport para mudar de opinião...
Mas isso são contas de outro Rosário, e eu sou suspeito porque há muitos anos que acompanho por dentro o Rali Vinho Madeira...

Mas, como nem só de Rali vivemos nós, ontem de manhã, os noticiários de uma Rádio, abriram com a notícia de "mais um incumprimento de uma Lei da República por parte do Governo Regional"!
E em seguida, desenvolviam dizendo que o Governo Regional se recusou a aplicar a lei das Carreiras da Função Pública, que reduz drásticamente o número das carreiras existentes.
Pronto,pensei eu, o AJJ tinha "atacado" outra vez e voltava a desafiar tudo e todos, naquela política estéril que a nada conduz...E lá íamos nós, os "desditosos" filhos desta terra pagar outra vez as "favas" de uma guerra inútil..

Um pouco mais tarde veio a surpresa, por esclarecimento da própria Assembleia da República (entidade insuspeita, neste caso): A lei nem sequer ainda tinha sido aprovada!
O Governo Regional, limitou-se a responder de forma negativa, a um pedido de parecer que tinha sido solicitado, no âmbito das suas competências, porque entende (e neste caso, bem!) que existem carreiras específicas da Região que têm que ser devidamente acauteladas... Aliás, contra esta fusão das carreiras, já se manifestaram quase todos os partidos da oposição e o sindicato da Função pública...
Qual será então o interesse em dar este tipo de notícias? Provocar o confronto? Irritar o Governo Regional? Agradar ao Poder Central?

Ou será pura e simplesmente incompetência???


Tiber

sexta-feira, julho 27, 2007

Tristeza(s)

Esta semana, a Assembleia Regional da Madeira, deu mais um daqueles tristes espectáculos a que já nos acostumou...
A casa que devia ser um exemplo de Liberdade e Tolerância, tornou-se outra vez num "antro" de insultos, ofensas, ameaças, que foram desde o PSD até ao PCP, e que acabam, principalmente com a regularidade em que se repetem, por dar um triste exemplo e contribuir para o descrédito que a política (e os políticos) cairam...
Nestas alturas, sinto-me envergonhado de ter ido votar, de ter contribuido para eleger algumas daquelas pessoas...
Estive muitos anos sem votar...Votava apenas para o Presidente da República, porque entendia que (ainda) era quem mais credibilidade trazia à Democracia e á própria política... Nas últimas eleições, (as eleições regionais antecipadas) resolvi ir votar, mais em protesto pelo facto de se estar a "colar" rótulos aos madeirenses do que por convicção, sempre me recusei a "fazer figura de carneirinho"...Mas, agora, depois desteas cenas deploráveis, não me revejo em nenhuma daquelas "alminhas" como diria meu avô...
O meu voto foi de protesto... Protesto contra o Governo Central por nos tratar como "Portugueses de segunda" por maioritariamente termos uma opção política diferente... Protesto contra o Governo Regional pela incapacidade manifesta de encontrar linhas que unam os madeirenses, e em vez disso priveligiar as fracturas tentando muitas vezes a teoria do "inimigo externo"...
Protesto ainda contra uma oposição regional que a única coisa que sabe fazer é "meter o rabo entre as pernas" quando as coisas aquecem, não percebendo que o único caminho é a seriedade e a honestidade mental, uma vez que para pior... já basta assim...

As palavras de Manuel Alegre, superiormente cantadas por Adriano e que eu ouvia à "socapa" em casa de meu avô, continuam actuais... O contexto pode ser bem diferente, mas o sentido e a sua força, permanecem na mesma:

....
E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Excerto da trova do Vento que passa (Manuel Alegre)


Valerá a pena votar em próximas eleições?
É que eu posso ter "cara de palhaço", vestir "roupa de palhaço", mas estou farto destas palhaçadas!

Tiber

terça-feira, julho 24, 2007

De volta...

Voltar a casa é sempre um descanso...
Depois de três semanas "andando por aí", voltar ao nosso cantinho, é sempre uma benção...
Até das "loucuras" da Niki já estava com saudades

Niki

Já tinha saudades de ao sair de casa de manhã, cumprimentar o vizinho, trocar duas palavras rápidas com o carteiro "Hoje não tenho nada para si... mas viu a caixa? Deve estar cheia, com tanto tempo fora..."! Sempre simpático e delicado o Sr. Jorge, carteiro desta zona há pelo menos 10 anos...

Já tinha saudades do cheiro a mar, do sabor a maresia, da humidade sufocante que "entra até aos ossos", de abrir a janela, e ver os barcos no porto do Funchal, de repousar a vista na baia, de ouvir ao longe o sino da igreja do Livramento, logo seguido do da igreja da Boa Nova, mesmo aqui ao lado...

A "minha " vista do Funchal

No fundo, são estes pequenos pormenores que "alegram" a nossa vida...

Apesar dos desvarios por vezes meio(? meio é favor...) tresloucados do Presidente do Governo Regional, das obras mal feitas e acabadas "à pressão", dos problemas financeiros, das dúvidas, das confusões, a Madeira continua a ser a minha "terra", o meu Porto de Abrigo, é aqui que tenho as minhas raízes, é aqui que eu pertenço, é aqui que eu me sinto bem; felizmente ainda não fui atraido pelo fascínio centralizador, nem pelo "canto da sereia" da antiga "Capital do Império"...

Tiber

sábado, julho 14, 2007

E vão passando os dias...

... mas sem que eu me sinta completamente de férias... Não sei porquê, mas este ano falta-me qualquer coisa... Não consigo desligar completamente do trabalho... Não consigo libertar-me por completo, não consigo atingir aquele "estado de despreocupação total" que limpa a mente e descansa o corpo...
Continuo a andar por aí... Quase sempre ao sabor do vento e da maré...Muitas vezes com a História em fundo... ou como desculpa, sei lá...

A nossa História é fértil em lendas , uma das que me lembro é a de D.Fuas Roupinho, primeiro Almirante Naval Português, e das marcas das patas do cavalo, no rochedo sobranceiro à Nazaré; foi a curiosidade sobre esta personagem (D.Fuas Roupinho), que me levou a Porto de Mós, vila da qual o fidalgo foi alcaide, nomeado pelo próprio D.Afonso Henriques...

Porto de Mós supreendeu-me, em primeiro lugar, pelo tamanho e pela quantidade de Comércio que apresenta, prova de que o Pais não é mesmo só Lisboa, por muito que nos queiram fazer crer...

Castelo de Porto de Mós

E maior foi a surpresa, ao ver o Castelo de D.Fuas Roupinho, que foi restaurado e adaptado recentemente a museu, mas sem ter sido estragado ou descaracterizado por intervenções de gosto duvidoso... O aproveitamento que a Câmara de Porto de Mós fez do seu principal Monumento, é um exemplo que devia ser seguido noutros monumentos deste país... a remodelação do espaço interior, aproveitando as ruinas e os recantos para a instalação de um museu, é digna de realce...A exposição em si, não é nada de extraordinário... surpreendeu-me pela visita ser gratuita, e ao que consta a Câmara de Porto de Mós, não tem nenhum "Berardo" como financiador...
Contrasta este facto, com a Sé de Évora, cuja visita à Basilica, é paga, o que a mim me choca bastante, não devia a "Casa de Deus" estar aberta a toda a gente?

Sé de Évora

Que fosse pago para visitar o Museu e os Claustros, sou o primeiro a apoiar, agora a Basílica???
No entanto, apesar do 1€ que custa para visitá-la, a espectacularidade da Sé de Évora, vale bem esse preço... O princípio é que está errado



Tiber

quinta-feira, julho 05, 2007

Andando por aí...

Finalmente, começo a sentir-me de férias...
E para isso, preciso de pouco... basta não ter horarios a cumprir, não ter rotas nem destinos... Pura e simplesmente, como dizia alguém (apesar do sentido ser bem diferente...) gosto é de "andar por aí"... à deriva, vagabundeando, parando quando dá fome, ou quando a beleza da paisagem a isso convida...
Este meu "andar por aí" leva-me a praias, vilas, castelos, igrejas, capelas...leva-me a conhecer e a reconhecer cantos e recantos do país... anteontem em Azeitão uma vila simpática de gente boa, trabalhadora, onde se come um dos melhores doces deste mundo...(as tortas de azeitão), onde se faz um dos melhores queijos e para terminar um vinho moscatel de se lhe tirar o chapéu....

Ontem na Nazaré, uma praia fabulosa, com um areal a perder de vista, se quem manda no "nosso" Porto Santo não fosse de mente tão fechada, tinha aqui se calhar um bom exemplo de como cativar os turistas... arte de bem receber, também tem muita influencia...
E hoje?
Hoje andei pelo "deserto"rumei a sul, até Alcácer do Sal... uma pérola à beira do Sado, se calhar desconhecida de muita gente... um calor sufocante, uma paisagem deslumbrante, sitios cheios de história, onde ainda infelizmente, se nota algum abandono e desintresse a que os nossos sucessivos governos votaram o Alentejo, o Ribatejo e bem vistas as coisas, todo o país...muitas vezes quando por aqui ando, me vem à ideia uma frase antiga " o país é Lisboa, o resto é paisagem"...

E após um almoço de peixe grelhado na brasa, eis que continuo para Sul até Grândola, vila morena eternizada pelo génio do Zeca e pela Revolução dos cravos... Grandola é para mim, um símbolo de luta contra a ditadura, que cada vez faz mais sentido, nestes tempos em que apesar da democracia, alguém insiste em dizer que a liberdade de expressão tem lugares próprios para ser usada, não é para usar na rua... essa teoria vergonhosa de que só se pode dizer mal do Governo em casa, é um mau princípio, tenho medo que qualquer dia, nem em casa se possa dizer nada...

Bom, as férias continuam, enquanto conseguir manter-me longe dos problemas e ir limpando a mente e renovando a esperança que muitas vezes pensamos perdida, já não é mau...

E amanhã é outro dia....

Tiber

domingo, junho 24, 2007

Quase de Férias

Há mais de um mês que não escrevia por aqui...
Desta vez, não houve nenhuma razão em especial, talvez fosse apenas falta de inspiração... Talvez fosse do desânimo que estes dias me trouxeram...
Mas, a melhor parte é que estou quase de férias...
E este ano ando desde Janeiro a suspirar por elas...
Não é cansaço físico, é bem pior... é saturação, cansaço psicológico, estou farto do meu trabalho, já não faço o que gosto (será que alguma vez o fiz???), e bem pior do que isso, acho que já não gosto do que faço... Sinto-me inútil, triste, desanimado, etc...
Sinto-me só aqui na ilha...

Sós
Irremediavelmente sós,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,
nenhum ser de nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só e mais ninguém.


António Gedeão (excerto de "Poema do Homem só")

Tiber