segunda-feira, maio 21, 2007

Obviamente, demitam-na!

Ás vezes, uma simples e pequena notícia, pode ser mais preocupante do que a abertura dos noticiários
Foi isso que aconteceu quando hoje, durante o telejornal, foi dita uma pequena notícia, sobre um professorque viu terminada a comissão de serviço e anda agora às costas com dois processos, um disciplinar e um outro colocado pelo Ministério Público... E qual o crime desse professor?
O mais tenebroso, o mais infame dos crimes... esse professor alegadamente insultou o nosso Excelentíssimo Primeiro Ministro, ao fazer um comentário jocoso, quando conversava com um amigo, sobre a possibilidade de tirar licenciatura por Fax...
Não foi em público, não foi no Jornal da Paróquia, não foi num Blog, foi numa conversa com um amigo... Será isto possível???
Que Crime Infame! Espero que o Condenem ao degredo, quiçá na Madeira, onde seria obrigado a aturar as inaugurações do Alberto João até ao fim dos seus dias... ou nas ilhas desertas, onde apenas 42 lobos marinhos seriam ouvintes atentos dos seus comentários jocosos e depreciativos...
Claro que não acredito que o nosso Excelentíssimo Primeiro Ministro tenha ouvido a mesma notícia, porque se ouvisse, de certeza que os processos já tinham sido encerrados por ordem superior, e quem os abriu já tinha sido demitido, despedido, exonerado, RUA!
Nem sei quem é o professor, nem me interessa, isso é completamente irrelevante... O que interessa nesta altura é pensar se é este o país que queremos, se é esta a sociedade que desejamos, se é por aqui que queremos ir...

O processo já de si é ridiculo, mas as justificações dadas pela Srª que ordenou a suspensão, roçam o disparate e atingem os limites mais baixos da subserviência....

Vá lá, Sr Primeiro Ministro: "Obviamente, demita-a!"

segunda-feira, maio 14, 2007

Fantasmas

1963, Colégio Lisbonense no Funchal, Sala da 1ª Classe, meados de Outubro.As aulas tinham começado há poucos dias... A professora, chega ao pé de um aluno e manda-o ler um pouco do livro de leitura... era para avaliar os conhecimentos que cada um já tinha...
O aluno timidamente lê algumas linhas do texto, de forma clara, mas com voz trémula de uma criança de seis anos...
Ao fim de poucas linhas, a professora pergunta:
"Estás mesmo a ler ou decoraste isso?"
"Estou a ler Srª Professora"
A professora vai buscar um outro livro, abre-o e diz:
"Lê este texto"
O aluno olha para o texto, e começa a ler com voz ainda mais trémula que da primeira vez:
"Ò mar salgado Quanto do teu sal
são lágrimas de Portugal!"
A professora diz:
"Basta, parabéns, sabes ler bem, quem te ensinou?"
O aluno desata então num choro...a professora carinhosamente aproxima-se e diz:
"Porque choras? leste bem, parabéns".
"Choro, porque a Srª professora não acreditou em mim!..."

O aluno era eu... A professora a D.Aldora...Não me lembro do primeiro texto, mas lembro-me perfeitamente do de Fernando Pessoa... Só anos mais tarde li o poema completo...
Ah! Não me lembro de ter respondido à pergunta, mas quem me ensinou a ler foi meu avô com a ajuda de meus pais...
Quando fui para a primária, lia correntemente, já tinha começado a devorar os livros dos Cinco...
E lembrei-me disto porque começou neste fim de semana a "Feira do Livro" aqui na Madeira...

"Quem me leva os meus fantasmas? Quem me diz onde é a estrada?"

Tiber

quarta-feira, maio 02, 2007

Mágoa

Mágoa

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada
-Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa

Hoje é daqueles dias em que as palavras de Pessoa me marcam e calam bem fundo....

E mais não digo...

Tiber

quarta-feira, abril 25, 2007

As portas que Abril Abriu...

"Os madeirenses não podem renegar a Pátria, pela razão natural de não poderem negar a Raça. Madeirenses e Ingleses, Madeirenses e Americanos são elementos que se repelem.Não é só o facto do sangue que impede essa união fantasista, essa osmose repugnante de raças diferentes, mas uma civilização secular com raízes profundas na vida e na história.Autonomia quer dizer descentralização, ou melhor desconcentração política e administrativa.Isso significa que à luz da Bandeira de todos os Portugueses, se levantará a Bandeira particular dos madeirenses, com seu escudo e brasão de armas.
Não é um grito de revolta, mas simples petição de justiça. Adquirimos direitos, exigimos que os reconheçam e nos garantam o seu livre exercício.
Dar autonomia à Madeira é constitui-la em unidade política e administrativa, compatíveis com os direitos da soberania nacional. É reconhecer que a Madeira pela sua situação geográfica, pela qualidade e número das suas relações com o Mundo, pelos seus usos e costumesdo seu povo, pelo grau do seu desenvolvimento moral, intelectual, agrícola, industrial, comercial, adquiriu uma fisionomia própria e especiais interesses colectivos próprios, que a individualizam como Região e como agregado social."
Extracto do livro : "A conquista da Autonomia da madeira, de Rui Nepomuceno"
Estas palavras não são recentes, contrariamente ao que possa transparecer, foram ditas em Dezembro de 1922 pelo Dr.Pestana Reis durante as comemorações do Quinto Centenário da Descoberta da Madeira.
A ideia da Autonomia Madeirense, não é portanto, uma invenção recente nem propriedade de nenhum actual "iluminado"; a Madeira sempre teve um passado de luta e de resistência Anti-Fascista, que alguns parecem querer fazer desaparecer da História!
Muitos parecem esquecer que a Madeira foi uma das (poucas) regiões que em bloco se manifestou e enfrentou Salazar, tendo depois os seus habitantes pago por essa ousadia até muito depois de 1974...

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Ary dos Santos (As portas que Abril Abriu)
Tiber

domingo, abril 15, 2007

Lágrima de Preta...

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão)

Este poema traz-me à memória um turbilhão de recordações...Em especial, de meu avô, que me explicou o que significava cada uma destas linhas, que me mostrou, era eu criança ainda que o racismo era uma coisa má (como ele dizia) e que devia sentir orgulho por Portugal ter sido talvez o primeiro país europeu a abolir a escravatura...
Alguns anos mais tarde, já meu avô não era vivo, redescobri este poema na voz de Adriano Correia de Oliveira.(Um LP trazido à socapa por um tio meu que na altura estudava em Coimbra..) e foi então meu tio quem me explicou porque é que o disco não estava à venda normalmente e porque é que se o quisesse ouvir alto, era melhor usar auscultadores...
Este poema, foi por tudo isto, uma verdadeira fonte de aprendizagem para mim....
Passaram mais uns anos e volto a redescobri-lo, dessa vez na sua forma científica, percebendo o que eram os ácidos, as bases e os sais...
Tudo começou de repente a fazer sentido...Nesses já longíquos anos 70, lembro-me de ter lido, quase como quem lê um romance, o livro de Física e Química, cujo autor se chamava Rómulo de Carvalho e hoje, ao arrumar alguns papeis antigos, encontrei uns apontamentos já meio desfeitos pela humidade (esta minha mania de guardar tudo tem este problema) um pequeno excerto de "A História do átomo" publicado em 1975, precisamente por Rómulo de Carvalho:

"O átomo começou por ser uma hipótese, uma suposição simplesmente cómoda para tornar mais fácil a interpretação do Universo, e acabou por ser um 'objecto', uma 'coisa', que se pode dirigir, dominar, criar e destruir. Foi como se alguém tivesse sonhado com um mundo fantástico e um dia o descobrisse, vivo e real, ao dobrar o cotovelo de uma estrada. Certamente ninguém acredita na existência das coloridas paisagens que o génio de Walt Disney tem imaginado e seria bem tolo aquele que percorresse o mundo na esperança de as encontrar. E se a encontrássemos, um dia, noutro planeta?
E assim sucedeu com o átomo: nasceu na imaginação e, afinal, existia."

Esta visão e descrição poética da ciência, sempre me fascinou... Não são muitos os que a têm e que são capazes de a exprimir desta forma... Rómulo de Carvalho, aliás António Gedeão, tinha...
E se nessa época os "chumbos" em física eram bem menores que agora, será que os Manuais e a forma como estavam (bem) feitos, não davam um contributo decisivo?

Tiber

sexta-feira, abril 13, 2007

Até amanhã, camaradas...

Eu não sou comunista, nunca votei no partido comunista e confesso que não tenho especial simpatia pelos ideais ou pelas posições defendidas pelo PCP.
No entanto, esta posição, não abafou a minha profunda admiração por duas pessoas, comunistas, que sempre mantiveram uma linha coerente e bem definida nas suas ideias: Álvaro Cunhal e Odete Santos.
Alváro Cunhal era uma mente brilhante, que tinha uma visão muito própria e clara do que queria para o país e não se desviava uma linha daquilo em que acreditava; era um homem verdadeiro, que não escondia a sua posição mesmo que isso lhe custasse alguns milhares de votos... Cunhal era incapaz de prometer baixar impostos e a seguir depois de eleito aumentá-los (onde é que eu já vi isto?)...
A deputada Odete Santos, do Partido Comunista, despediu-se hoje do Parlamento, com um discurso emocionado...
Odete Santos é talvez a última das verdadeiras comunistas, daquelas que não vacilam nas suas convicções, não abdicam do que acreditam nem "metem os ideias na gaveta" .... e Hoje, pela ultima vez discursou no Parlamento; abandona-o porque assim o quer, porque entende que "chegou a hora"... e ao contrário de outros, não acredito que vá "andar por aí" , pois enquanto "houver estrada para andar" ela lá estará, como sempre esteve, do "lado esquerdo" da vida!
Nunca fez tanto sentido a frase dita de forma emocionada "Até amanhã Camaradas!"
Ficou o Parlamento mais pobre, mas Odete Santos saiu da forma que quiz, coerente consigo própria como não podia deixar de ser...

Tiber

sexta-feira, abril 06, 2007

Portugal, um país estranho...

Eu não entendo este país... e muito menos as suas gentes... em primeiro lugar, elegem como o "Maior Português de sempre" um ditador, que nunca ganhou uma eleição de forma livre e democrática enquanto foi vivo... Mas, não contentes com isso, há uns quantos que reunidos num Partido que nem sei o nome ao certo, publicaram em Lisboa (claro que só poderia ser lá...) um cartaz com todas as intenções xenófobas e dando a entender que os estrangeiros estão a mais aqui... esquecendo-se de que também nós somos ainda um povo de emigrantes... Os portugueses nunca foram assim... A xenofobia nunca fez parte da nossa maneira de ser! Porquê agora?

Mas quando alguém reclamou, o tribunal analisou a questão e chegou à conclusão que afinal o cartaz era inocente e sem maldade nenhuma... Ficou toda a gente de boca aberta... então não é que aquilo que aos olhos de todos era uma coisa, afinal era outra?
Como diria meu avô, "Benza-te Deus que ninguém os entende!".

E quando se pensa que já tinha acontecido de tudo, eis que um grupo humorista, que não abdica de intervir politicamente, faz publicar um cartaz satirizando o outro, (o tal que afinal parecia xenófobo e não era).

E não é que alguém mandou retirar este cartaz porque "não estava autorizado"...
Nesta sexta feira santa, ao ver tudo isto, lembro-me de umas palavras ditas há mais de 2000 anos, mas que hoje, aqui e agora, nesta "espécie de país" à beira mar plantado não podiam ser mais actuais
"Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem!"