Mágoa
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada
-Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
Fernando Pessoa
Hoje é daqueles dias em que as palavras de Pessoa me marcam e calam bem fundo....
E mais não digo...
Tiber
quarta-feira, maio 02, 2007
quarta-feira, abril 25, 2007
As portas que Abril Abriu...
"Os madeirenses não podem renegar a Pátria, pela razão natural de não poderem negar a Raça. Madeirenses e Ingleses, Madeirenses e Americanos são elementos que se repelem.Não é só o facto do sangue que impede essa união fantasista, essa osmose repugnante de raças diferentes, mas uma civilização secular com raízes profundas na vida e na história.Autonomia quer dizer descentralização, ou melhor desconcentração política e administrativa.Isso significa que à luz da Bandeira de todos os Portugueses, se levantará a Bandeira particular dos madeirenses, com seu escudo e brasão de armas.
Não é um grito de revolta, mas simples petição de justiça. Adquirimos direitos, exigimos que os reconheçam e nos garantam o seu livre exercício.
Dar autonomia à Madeira é constitui-la em unidade política e administrativa, compatíveis com os direitos da soberania nacional. É reconhecer que a Madeira pela sua situação geográfica, pela qualidade e número das suas relações com o Mundo, pelos seus usos e costumesdo seu povo, pelo grau do seu desenvolvimento moral, intelectual, agrícola, industrial, comercial, adquiriu uma fisionomia própria e especiais interesses colectivos próprios, que a individualizam como Região e como agregado social."
Extracto do livro : "A conquista da Autonomia da madeira, de Rui Nepomuceno"
Estas palavras não são recentes, contrariamente ao que possa transparecer, foram ditas em Dezembro de 1922 pelo Dr.Pestana Reis durante as comemorações do Quinto Centenário da Descoberta da Madeira.
A ideia da Autonomia Madeirense, não é portanto, uma invenção recente nem propriedade de nenhum actual "iluminado"; a Madeira sempre teve um passado de luta e de resistência Anti-Fascista, que alguns parecem querer fazer desaparecer da História!
Muitos parecem esquecer que a Madeira foi uma das (poucas) regiões que em bloco se manifestou e enfrentou Salazar, tendo depois os seus habitantes pago por essa ousadia até muito depois de 1974...
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Ary dos Santos (As portas que Abril Abriu)
Tiber
domingo, abril 15, 2007
Lágrima de Preta...
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
Olhai-a de um lado,
Mandei vir os ácidos,
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
"O átomo começou por ser uma hipótese, uma suposição simplesmente cómoda para tornar mais fácil a interpretação do Universo, e acabou por ser um 'objecto', uma 'coisa', que se pode dirigir, dominar, criar e destruir. Foi como se alguém tivesse sonhado com um mundo fantástico e um dia o descobrisse, vivo e real, ao dobrar o cotovelo de uma estrada. Certamente ninguém acredita na existência das coloridas paisagens que o génio de Walt Disney tem imaginado e seria bem tolo aquele que percorresse o mundo na esperança de as encontrar. E se a encontrássemos, um dia, noutro planeta?
E assim sucedeu com o átomo: nasceu na imaginação e, afinal, existia."
Esta visão e descrição poética da ciência, sempre me fascinou... Não são muitos os que a têm e que são capazes de a exprimir desta forma... Rómulo de Carvalho, aliás António Gedeão, tinha...
Tiber
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
(António Gedeão)
(António Gedeão)
Este poema traz-me à memória um turbilhão de recordações...Em especial, de meu avô, que me explicou o que significava cada uma destas linhas, que me mostrou, era eu criança ainda que o racismo era uma coisa má (como ele dizia) e que devia sentir orgulho por Portugal ter sido talvez o primeiro país europeu a abolir a escravatura...
Alguns anos mais tarde, já meu avô não era vivo, redescobri este poema na voz de Adriano Correia de Oliveira.(Um LP trazido à socapa por um tio meu que na altura estudava em Coimbra..) e foi então meu tio quem me explicou porque é que o disco não estava à venda normalmente e porque é que se o quisesse ouvir alto, era melhor usar auscultadores...
Este poema, foi por tudo isto, uma verdadeira fonte de aprendizagem para mim....
Passaram mais uns anos e volto a redescobri-lo, dessa vez na sua forma científica, percebendo o que eram os ácidos, as bases e os sais...
Tudo começou de repente a fazer sentido...Nesses já longíquos anos 70, lembro-me de ter lido, quase como quem lê um romance, o livro de Física e Química, cujo autor se chamava Rómulo de Carvalho e hoje, ao arrumar alguns papeis antigos, encontrei uns apontamentos já meio desfeitos pela humidade (esta minha mania de guardar tudo tem este problema) um pequeno excerto de "A História do átomo" publicado em 1975, precisamente por Rómulo de Carvalho:
"O átomo começou por ser uma hipótese, uma suposição simplesmente cómoda para tornar mais fácil a interpretação do Universo, e acabou por ser um 'objecto', uma 'coisa', que se pode dirigir, dominar, criar e destruir. Foi como se alguém tivesse sonhado com um mundo fantástico e um dia o descobrisse, vivo e real, ao dobrar o cotovelo de uma estrada. Certamente ninguém acredita na existência das coloridas paisagens que o génio de Walt Disney tem imaginado e seria bem tolo aquele que percorresse o mundo na esperança de as encontrar. E se a encontrássemos, um dia, noutro planeta?
E assim sucedeu com o átomo: nasceu na imaginação e, afinal, existia."
E se nessa época os "chumbos" em física eram bem menores que agora, será que os Manuais e a forma como estavam (bem) feitos, não davam um contributo decisivo?
Tiber
sexta-feira, abril 13, 2007
Até amanhã, camaradas...
Eu não sou comunista, nunca votei no partido comunista e confesso que não tenho especial simpatia pelos ideais ou pelas posições defendidas pelo PCP.
No entanto, esta posição, não abafou a minha profunda admiração por duas pessoas, comunistas, que sempre mantiveram uma linha coerente e bem definida nas suas ideias: Álvaro Cunhal e Odete Santos.
Alváro Cunhal era uma mente brilhante, que tinha uma visão muito própria e clara do que queria para o país e não se desviava uma linha daquilo em que acreditava; era um homem verdadeiro, que não escondia a sua posição mesmo que isso lhe custasse alguns milhares de votos... Cunhal era incapaz de prometer baixar impostos e a seguir depois de eleito aumentá-los (onde é que eu já vi isto?)...
A deputada Odete Santos, do Partido Comunista, despediu-se hoje do Parlamento, com um discurso emocionado...
Odete Santos é talvez a última das verdadeiras comunistas, daquelas que não vacilam nas suas convicções, não abdicam do que acreditam nem "metem os ideias na gaveta" .... e Hoje, pela ultima vez discursou no Parlamento; abandona-o porque assim o quer, porque entende que "chegou a hora"... e ao contrário de outros, não acredito que vá "andar por aí" , pois enquanto "houver estrada para andar" ela lá estará, como sempre esteve, do "lado esquerdo" da vida!
Nunca fez tanto sentido a frase dita de forma emocionada "Até amanhã Camaradas!"
Ficou o Parlamento mais pobre, mas Odete Santos saiu da forma que quiz, coerente consigo própria como não podia deixar de ser...
Odete Santos é talvez a última das verdadeiras comunistas, daquelas que não vacilam nas suas convicções, não abdicam do que acreditam nem "metem os ideias na gaveta" .... e Hoje, pela ultima vez discursou no Parlamento; abandona-o porque assim o quer, porque entende que "chegou a hora"... e ao contrário de outros, não acredito que vá "andar por aí" , pois enquanto "houver estrada para andar" ela lá estará, como sempre esteve, do "lado esquerdo" da vida!
Nunca fez tanto sentido a frase dita de forma emocionada "Até amanhã Camaradas!"
Ficou o Parlamento mais pobre, mas Odete Santos saiu da forma que quiz, coerente consigo própria como não podia deixar de ser...
Tiber
sexta-feira, abril 06, 2007
Portugal, um país estranho...
Eu não entendo este país... e muito menos as suas gentes... em primeiro lugar, elegem como o "Maior Português de sempre" um ditador, que nunca ganhou uma eleição de forma livre e democrática enquanto foi vivo... Mas, não contentes com isso, há uns quantos que reunidos num Partido que nem sei o nome ao certo, publicaram em Lisboa (claro que só poderia ser lá...) um cartaz com todas as intenções xenófobas e dando a entender que os estrangeiros estão a mais aqui... esquecendo-se de que também nós somos ainda um povo de emigrantes... Os portugueses nunca foram assim... A xenofobia nunca fez parte da nossa maneira de ser! Porquê agora?
Mas quando alguém reclamou, o tribunal analisou a questão e chegou à conclusão que afinal o cartaz era inocente e sem maldade nenhuma... Ficou toda a gente de boca aberta... então não é que aquilo que aos olhos de todos era uma coisa, afinal era outra?
Como diria meu avô, "Benza-te Deus que ninguém os entende!".
E quando se pensa que já tinha acontecido de tudo, eis que um grupo humorista, que não abdica de intervir politicamente, faz publicar um cartaz satirizando o outro, (o tal que afinal parecia xenófobo e não era).
E não é que alguém mandou retirar este cartaz porque "não estava autorizado"...
Nesta sexta feira santa, ao ver tudo isto, lembro-me de umas palavras ditas há mais de 2000 anos, mas que hoje, aqui e agora, nesta "espécie de país" à beira mar plantado não podiam ser mais actuais
"Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem!"
Mas quando alguém reclamou, o tribunal analisou a questão e chegou à conclusão que afinal o cartaz era inocente e sem maldade nenhuma... Ficou toda a gente de boca aberta... então não é que aquilo que aos olhos de todos era uma coisa, afinal era outra?
Como diria meu avô, "Benza-te Deus que ninguém os entende!".
E quando se pensa que já tinha acontecido de tudo, eis que um grupo humorista, que não abdica de intervir politicamente, faz publicar um cartaz satirizando o outro, (o tal que afinal parecia xenófobo e não era).E não é que alguém mandou retirar este cartaz porque "não estava autorizado"...
Nesta sexta feira santa, ao ver tudo isto, lembro-me de umas palavras ditas há mais de 2000 anos, mas que hoje, aqui e agora, nesta "espécie de país" à beira mar plantado não podiam ser mais actuais
"Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem!"
quarta-feira, abril 04, 2007
Roma
No Blog de uma amiga e colega de longa data, "Mulheres de Atenas",
tem uma crónica emocionada de uma recente viagem por ela feita a Roma e Assis. Esse relato lembrou-me a minha própria experiência em Roma, onde estive por razões profissionais durante cerca de mês e meio...
tem uma crónica emocionada de uma recente viagem por ela feita a Roma e Assis. Esse relato lembrou-me a minha própria experiência em Roma, onde estive por razões profissionais durante cerca de mês e meio...Foram dias inesquecíveis! Roma é das cidades que visitei, a única que me deixa uma sensação do tipo "De onde é que eu conheço isto?"
É uma cidade carregada de história, onde a cada passo se respira a atmosfera da antiguidade, em paralelo com uma cidade moderna e cosmopolita onde em muitos casos, os monumentos nem sempre foram tratados e compreendidos com a dignidade que mereciam, mas onde a "história está lá!" viveu-se ali, entre aquelas muralhas...
Traz-nos uma sensação estranha, pisar um degrau onde há mais de dois mil anos, César foi assassinado, quase que dá para ouvir a voz dele e ver sangue manchando o chão...
Roma é, para mim, uma fonte inesgotável de sensações e de recordações!
Desde a emoção e aquela sensação de falta de ar provocada pela primeira vez que se olha para a "Capela Sistina" com o seu tecto indiscritivel, fruto do genial talento de Michelangelo, passando pela sensação de grandeza da Piazza Navona iluminada pelo trabalho de Bernini na "Fontana dei Quattro Fiumi", sem esquecer as inumeras igrejas e capelas com altares de rara beleza, desde Santa Maria Maggiore a San Pietro FuoriMuri até às ruinas imponentes do Coliseu e dos vários foruns Romanos! 

Tudo em Roma transpira a história, a nossa história!
Mas Roma também é a Via Condotti com as suas lojas de marca, e o espectacular café "El Greco",
as escadas da Trinitá dei Monti, o volumoso "Monumento" a Vittorio Emanuel, a célebre Fontana dei Trevi, as "tratorias" dos arredores de Roma, onde se come "La vera pasta", o restaurante "Il picollo Mundo", com as suas paredes decoradas de fotografias de personalidades famosas, do Mundo do Cinema, a Via Venetto, palco do filme " La Dolce Vita" de Felini...
as escadas da Trinitá dei Monti, o volumoso "Monumento" a Vittorio Emanuel, a célebre Fontana dei Trevi, as "tratorias" dos arredores de Roma, onde se come "La vera pasta", o restaurante "Il picollo Mundo", com as suas paredes decoradas de fotografias de personalidades famosas, do Mundo do Cinema, a Via Venetto, palco do filme " La Dolce Vita" de Felini...
E nem falei do Vaticano...
Por tudo isto e por muito mais que eu aqui não disse: "Arrivederci Roma!!"
Tiber
domingo, abril 01, 2007
Ausencia
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.
Desta vez, a minha ausencia deste espaço tem uma justificação...
Ou pelo menos tenho um motivo...
A saúde às vezes trai-nos quando menos esperamos...
Mas, enquanto não sabia os resultados, andei um pouco desorientado, desanimado, dificilmente evitava que o pensamento fujisse para os piores cenários, conduzindo a todo um grupo de hipóteses cada uma pior que a anterior... Refugiei-me no trabalho e no conforto de alguns (poucos) amigos e familiares mais chegados...
Isso tirou-me toda a vontade de por aqui andar e pensei até em fechar de vez este espaço...
Por outro lado, pensei na minha vida, no que já fiz, e no muito que ainda quero fazer, não quero passar pela vida, quero viver!
Felizmente, tudo acabou... pelo menos por agora...Mas o susto e a angústia ficam para sempre!
Tiber
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.
Desta vez, a minha ausencia deste espaço tem uma justificação...
Ou pelo menos tenho um motivo...
A saúde às vezes trai-nos quando menos esperamos...
Umas simples análises clínicas de rotina conduziram a toda uma série de testes, exames e ainda mais análises, felizmente já terminados e com um diagnóstico simples: "Anemia Ferropénica ou Ferropriva" resumindo: deficiência (eventualmente alimentar) em ferro...
Mas, enquanto não sabia os resultados, andei um pouco desorientado, desanimado, dificilmente evitava que o pensamento fujisse para os piores cenários, conduzindo a todo um grupo de hipóteses cada uma pior que a anterior... Refugiei-me no trabalho e no conforto de alguns (poucos) amigos e familiares mais chegados...
Isso tirou-me toda a vontade de por aqui andar e pensei até em fechar de vez este espaço...
Por outro lado, pensei na minha vida, no que já fiz, e no muito que ainda quero fazer, não quero passar pela vida, quero viver!
Felizmente, tudo acabou... pelo menos por agora...
Tiber
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