sábado, julho 14, 2007

E vão passando os dias...

... mas sem que eu me sinta completamente de férias... Não sei porquê, mas este ano falta-me qualquer coisa... Não consigo desligar completamente do trabalho... Não consigo libertar-me por completo, não consigo atingir aquele "estado de despreocupação total" que limpa a mente e descansa o corpo...
Continuo a andar por aí... Quase sempre ao sabor do vento e da maré...Muitas vezes com a História em fundo... ou como desculpa, sei lá...

A nossa História é fértil em lendas , uma das que me lembro é a de D.Fuas Roupinho, primeiro Almirante Naval Português, e das marcas das patas do cavalo, no rochedo sobranceiro à Nazaré; foi a curiosidade sobre esta personagem (D.Fuas Roupinho), que me levou a Porto de Mós, vila da qual o fidalgo foi alcaide, nomeado pelo próprio D.Afonso Henriques...

Porto de Mós supreendeu-me, em primeiro lugar, pelo tamanho e pela quantidade de Comércio que apresenta, prova de que o Pais não é mesmo só Lisboa, por muito que nos queiram fazer crer...

Castelo de Porto de Mós

E maior foi a surpresa, ao ver o Castelo de D.Fuas Roupinho, que foi restaurado e adaptado recentemente a museu, mas sem ter sido estragado ou descaracterizado por intervenções de gosto duvidoso... O aproveitamento que a Câmara de Porto de Mós fez do seu principal Monumento, é um exemplo que devia ser seguido noutros monumentos deste país... a remodelação do espaço interior, aproveitando as ruinas e os recantos para a instalação de um museu, é digna de realce...A exposição em si, não é nada de extraordinário... surpreendeu-me pela visita ser gratuita, e ao que consta a Câmara de Porto de Mós, não tem nenhum "Berardo" como financiador...
Contrasta este facto, com a Sé de Évora, cuja visita à Basilica, é paga, o que a mim me choca bastante, não devia a "Casa de Deus" estar aberta a toda a gente?

Sé de Évora

Que fosse pago para visitar o Museu e os Claustros, sou o primeiro a apoiar, agora a Basílica???
No entanto, apesar do 1€ que custa para visitá-la, a espectacularidade da Sé de Évora, vale bem esse preço... O princípio é que está errado



Tiber

quinta-feira, julho 05, 2007

Andando por aí...

Finalmente, começo a sentir-me de férias...
E para isso, preciso de pouco... basta não ter horarios a cumprir, não ter rotas nem destinos... Pura e simplesmente, como dizia alguém (apesar do sentido ser bem diferente...) gosto é de "andar por aí"... à deriva, vagabundeando, parando quando dá fome, ou quando a beleza da paisagem a isso convida...
Este meu "andar por aí" leva-me a praias, vilas, castelos, igrejas, capelas...leva-me a conhecer e a reconhecer cantos e recantos do país... anteontem em Azeitão uma vila simpática de gente boa, trabalhadora, onde se come um dos melhores doces deste mundo...(as tortas de azeitão), onde se faz um dos melhores queijos e para terminar um vinho moscatel de se lhe tirar o chapéu....

Ontem na Nazaré, uma praia fabulosa, com um areal a perder de vista, se quem manda no "nosso" Porto Santo não fosse de mente tão fechada, tinha aqui se calhar um bom exemplo de como cativar os turistas... arte de bem receber, também tem muita influencia...
E hoje?
Hoje andei pelo "deserto"rumei a sul, até Alcácer do Sal... uma pérola à beira do Sado, se calhar desconhecida de muita gente... um calor sufocante, uma paisagem deslumbrante, sitios cheios de história, onde ainda infelizmente, se nota algum abandono e desintresse a que os nossos sucessivos governos votaram o Alentejo, o Ribatejo e bem vistas as coisas, todo o país...muitas vezes quando por aqui ando, me vem à ideia uma frase antiga " o país é Lisboa, o resto é paisagem"...

E após um almoço de peixe grelhado na brasa, eis que continuo para Sul até Grândola, vila morena eternizada pelo génio do Zeca e pela Revolução dos cravos... Grandola é para mim, um símbolo de luta contra a ditadura, que cada vez faz mais sentido, nestes tempos em que apesar da democracia, alguém insiste em dizer que a liberdade de expressão tem lugares próprios para ser usada, não é para usar na rua... essa teoria vergonhosa de que só se pode dizer mal do Governo em casa, é um mau princípio, tenho medo que qualquer dia, nem em casa se possa dizer nada...

Bom, as férias continuam, enquanto conseguir manter-me longe dos problemas e ir limpando a mente e renovando a esperança que muitas vezes pensamos perdida, já não é mau...

E amanhã é outro dia....

Tiber

domingo, junho 24, 2007

Quase de Férias

Há mais de um mês que não escrevia por aqui...
Desta vez, não houve nenhuma razão em especial, talvez fosse apenas falta de inspiração... Talvez fosse do desânimo que estes dias me trouxeram...
Mas, a melhor parte é que estou quase de férias...
E este ano ando desde Janeiro a suspirar por elas...
Não é cansaço físico, é bem pior... é saturação, cansaço psicológico, estou farto do meu trabalho, já não faço o que gosto (será que alguma vez o fiz???), e bem pior do que isso, acho que já não gosto do que faço... Sinto-me inútil, triste, desanimado, etc...
Sinto-me só aqui na ilha...

Sós
Irremediavelmente sós,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,
nenhum ser de nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só e mais ninguém.


António Gedeão (excerto de "Poema do Homem só")

Tiber

segunda-feira, maio 21, 2007

Obviamente, demitam-na!

Ás vezes, uma simples e pequena notícia, pode ser mais preocupante do que a abertura dos noticiários
Foi isso que aconteceu quando hoje, durante o telejornal, foi dita uma pequena notícia, sobre um professorque viu terminada a comissão de serviço e anda agora às costas com dois processos, um disciplinar e um outro colocado pelo Ministério Público... E qual o crime desse professor?
O mais tenebroso, o mais infame dos crimes... esse professor alegadamente insultou o nosso Excelentíssimo Primeiro Ministro, ao fazer um comentário jocoso, quando conversava com um amigo, sobre a possibilidade de tirar licenciatura por Fax...
Não foi em público, não foi no Jornal da Paróquia, não foi num Blog, foi numa conversa com um amigo... Será isto possível???
Que Crime Infame! Espero que o Condenem ao degredo, quiçá na Madeira, onde seria obrigado a aturar as inaugurações do Alberto João até ao fim dos seus dias... ou nas ilhas desertas, onde apenas 42 lobos marinhos seriam ouvintes atentos dos seus comentários jocosos e depreciativos...
Claro que não acredito que o nosso Excelentíssimo Primeiro Ministro tenha ouvido a mesma notícia, porque se ouvisse, de certeza que os processos já tinham sido encerrados por ordem superior, e quem os abriu já tinha sido demitido, despedido, exonerado, RUA!
Nem sei quem é o professor, nem me interessa, isso é completamente irrelevante... O que interessa nesta altura é pensar se é este o país que queremos, se é esta a sociedade que desejamos, se é por aqui que queremos ir...

O processo já de si é ridiculo, mas as justificações dadas pela Srª que ordenou a suspensão, roçam o disparate e atingem os limites mais baixos da subserviência....

Vá lá, Sr Primeiro Ministro: "Obviamente, demita-a!"

segunda-feira, maio 14, 2007

Fantasmas

1963, Colégio Lisbonense no Funchal, Sala da 1ª Classe, meados de Outubro.As aulas tinham começado há poucos dias... A professora, chega ao pé de um aluno e manda-o ler um pouco do livro de leitura... era para avaliar os conhecimentos que cada um já tinha...
O aluno timidamente lê algumas linhas do texto, de forma clara, mas com voz trémula de uma criança de seis anos...
Ao fim de poucas linhas, a professora pergunta:
"Estás mesmo a ler ou decoraste isso?"
"Estou a ler Srª Professora"
A professora vai buscar um outro livro, abre-o e diz:
"Lê este texto"
O aluno olha para o texto, e começa a ler com voz ainda mais trémula que da primeira vez:
"Ò mar salgado Quanto do teu sal
são lágrimas de Portugal!"
A professora diz:
"Basta, parabéns, sabes ler bem, quem te ensinou?"
O aluno desata então num choro...a professora carinhosamente aproxima-se e diz:
"Porque choras? leste bem, parabéns".
"Choro, porque a Srª professora não acreditou em mim!..."

O aluno era eu... A professora a D.Aldora...Não me lembro do primeiro texto, mas lembro-me perfeitamente do de Fernando Pessoa... Só anos mais tarde li o poema completo...
Ah! Não me lembro de ter respondido à pergunta, mas quem me ensinou a ler foi meu avô com a ajuda de meus pais...
Quando fui para a primária, lia correntemente, já tinha começado a devorar os livros dos Cinco...
E lembrei-me disto porque começou neste fim de semana a "Feira do Livro" aqui na Madeira...

"Quem me leva os meus fantasmas? Quem me diz onde é a estrada?"

Tiber

quarta-feira, maio 02, 2007

Mágoa

Mágoa

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada
-Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa

Hoje é daqueles dias em que as palavras de Pessoa me marcam e calam bem fundo....

E mais não digo...

Tiber

quarta-feira, abril 25, 2007

As portas que Abril Abriu...

"Os madeirenses não podem renegar a Pátria, pela razão natural de não poderem negar a Raça. Madeirenses e Ingleses, Madeirenses e Americanos são elementos que se repelem.Não é só o facto do sangue que impede essa união fantasista, essa osmose repugnante de raças diferentes, mas uma civilização secular com raízes profundas na vida e na história.Autonomia quer dizer descentralização, ou melhor desconcentração política e administrativa.Isso significa que à luz da Bandeira de todos os Portugueses, se levantará a Bandeira particular dos madeirenses, com seu escudo e brasão de armas.
Não é um grito de revolta, mas simples petição de justiça. Adquirimos direitos, exigimos que os reconheçam e nos garantam o seu livre exercício.
Dar autonomia à Madeira é constitui-la em unidade política e administrativa, compatíveis com os direitos da soberania nacional. É reconhecer que a Madeira pela sua situação geográfica, pela qualidade e número das suas relações com o Mundo, pelos seus usos e costumesdo seu povo, pelo grau do seu desenvolvimento moral, intelectual, agrícola, industrial, comercial, adquiriu uma fisionomia própria e especiais interesses colectivos próprios, que a individualizam como Região e como agregado social."
Extracto do livro : "A conquista da Autonomia da madeira, de Rui Nepomuceno"
Estas palavras não são recentes, contrariamente ao que possa transparecer, foram ditas em Dezembro de 1922 pelo Dr.Pestana Reis durante as comemorações do Quinto Centenário da Descoberta da Madeira.
A ideia da Autonomia Madeirense, não é portanto, uma invenção recente nem propriedade de nenhum actual "iluminado"; a Madeira sempre teve um passado de luta e de resistência Anti-Fascista, que alguns parecem querer fazer desaparecer da História!
Muitos parecem esquecer que a Madeira foi uma das (poucas) regiões que em bloco se manifestou e enfrentou Salazar, tendo depois os seus habitantes pago por essa ousadia até muito depois de 1974...

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Ary dos Santos (As portas que Abril Abriu)
Tiber