domingo, abril 15, 2007

Lágrima de Preta...

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhai-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão)

Este poema traz-me à memória um turbilhão de recordações...Em especial, de meu avô, que me explicou o que significava cada uma destas linhas, que me mostrou, era eu criança ainda que o racismo era uma coisa má (como ele dizia) e que devia sentir orgulho por Portugal ter sido talvez o primeiro país europeu a abolir a escravatura...
Alguns anos mais tarde, já meu avô não era vivo, redescobri este poema na voz de Adriano Correia de Oliveira.(Um LP trazido à socapa por um tio meu que na altura estudava em Coimbra..) e foi então meu tio quem me explicou porque é que o disco não estava à venda normalmente e porque é que se o quisesse ouvir alto, era melhor usar auscultadores...
Este poema, foi por tudo isto, uma verdadeira fonte de aprendizagem para mim....
Passaram mais uns anos e volto a redescobri-lo, dessa vez na sua forma científica, percebendo o que eram os ácidos, as bases e os sais...
Tudo começou de repente a fazer sentido...Nesses já longíquos anos 70, lembro-me de ter lido, quase como quem lê um romance, o livro de Física e Química, cujo autor se chamava Rómulo de Carvalho e hoje, ao arrumar alguns papeis antigos, encontrei uns apontamentos já meio desfeitos pela humidade (esta minha mania de guardar tudo tem este problema) um pequeno excerto de "A História do átomo" publicado em 1975, precisamente por Rómulo de Carvalho:

"O átomo começou por ser uma hipótese, uma suposição simplesmente cómoda para tornar mais fácil a interpretação do Universo, e acabou por ser um 'objecto', uma 'coisa', que se pode dirigir, dominar, criar e destruir. Foi como se alguém tivesse sonhado com um mundo fantástico e um dia o descobrisse, vivo e real, ao dobrar o cotovelo de uma estrada. Certamente ninguém acredita na existência das coloridas paisagens que o génio de Walt Disney tem imaginado e seria bem tolo aquele que percorresse o mundo na esperança de as encontrar. E se a encontrássemos, um dia, noutro planeta?
E assim sucedeu com o átomo: nasceu na imaginação e, afinal, existia."

Esta visão e descrição poética da ciência, sempre me fascinou... Não são muitos os que a têm e que são capazes de a exprimir desta forma... Rómulo de Carvalho, aliás António Gedeão, tinha...
E se nessa época os "chumbos" em física eram bem menores que agora, será que os Manuais e a forma como estavam (bem) feitos, não davam um contributo decisivo?

Tiber

sexta-feira, abril 13, 2007

Até amanhã, camaradas...

Eu não sou comunista, nunca votei no partido comunista e confesso que não tenho especial simpatia pelos ideais ou pelas posições defendidas pelo PCP.
No entanto, esta posição, não abafou a minha profunda admiração por duas pessoas, comunistas, que sempre mantiveram uma linha coerente e bem definida nas suas ideias: Álvaro Cunhal e Odete Santos.
Alváro Cunhal era uma mente brilhante, que tinha uma visão muito própria e clara do que queria para o país e não se desviava uma linha daquilo em que acreditava; era um homem verdadeiro, que não escondia a sua posição mesmo que isso lhe custasse alguns milhares de votos... Cunhal era incapaz de prometer baixar impostos e a seguir depois de eleito aumentá-los (onde é que eu já vi isto?)...
A deputada Odete Santos, do Partido Comunista, despediu-se hoje do Parlamento, com um discurso emocionado...
Odete Santos é talvez a última das verdadeiras comunistas, daquelas que não vacilam nas suas convicções, não abdicam do que acreditam nem "metem os ideias na gaveta" .... e Hoje, pela ultima vez discursou no Parlamento; abandona-o porque assim o quer, porque entende que "chegou a hora"... e ao contrário de outros, não acredito que vá "andar por aí" , pois enquanto "houver estrada para andar" ela lá estará, como sempre esteve, do "lado esquerdo" da vida!
Nunca fez tanto sentido a frase dita de forma emocionada "Até amanhã Camaradas!"
Ficou o Parlamento mais pobre, mas Odete Santos saiu da forma que quiz, coerente consigo própria como não podia deixar de ser...

Tiber

sexta-feira, abril 06, 2007

Portugal, um país estranho...

Eu não entendo este país... e muito menos as suas gentes... em primeiro lugar, elegem como o "Maior Português de sempre" um ditador, que nunca ganhou uma eleição de forma livre e democrática enquanto foi vivo... Mas, não contentes com isso, há uns quantos que reunidos num Partido que nem sei o nome ao certo, publicaram em Lisboa (claro que só poderia ser lá...) um cartaz com todas as intenções xenófobas e dando a entender que os estrangeiros estão a mais aqui... esquecendo-se de que também nós somos ainda um povo de emigrantes... Os portugueses nunca foram assim... A xenofobia nunca fez parte da nossa maneira de ser! Porquê agora?

Mas quando alguém reclamou, o tribunal analisou a questão e chegou à conclusão que afinal o cartaz era inocente e sem maldade nenhuma... Ficou toda a gente de boca aberta... então não é que aquilo que aos olhos de todos era uma coisa, afinal era outra?
Como diria meu avô, "Benza-te Deus que ninguém os entende!".

E quando se pensa que já tinha acontecido de tudo, eis que um grupo humorista, que não abdica de intervir politicamente, faz publicar um cartaz satirizando o outro, (o tal que afinal parecia xenófobo e não era).

E não é que alguém mandou retirar este cartaz porque "não estava autorizado"...
Nesta sexta feira santa, ao ver tudo isto, lembro-me de umas palavras ditas há mais de 2000 anos, mas que hoje, aqui e agora, nesta "espécie de país" à beira mar plantado não podiam ser mais actuais
"Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem!"

quarta-feira, abril 04, 2007

Roma

No Blog de uma amiga e colega de longa data, "Mulheres de Atenas", tem uma crónica emocionada de uma recente viagem por ela feita a Roma e Assis. Esse relato lembrou-me a minha própria experiência em Roma, onde estive por razões profissionais durante cerca de mês e meio...
Foram dias inesquecíveis! Roma é das cidades que visitei, a única que me deixa uma sensação do tipo "De onde é que eu conheço isto?"
É uma cidade carregada de história, onde a cada passo se respira a atmosfera da antiguidade, em paralelo com uma cidade moderna e cosmopolita onde em muitos casos, os monumentos nem sempre foram tratados e compreendidos com a dignidade que mereciam, mas onde a "história está lá!" viveu-se ali, entre aquelas muralhas...
Traz-nos uma sensação estranha, pisar um degrau onde há mais de dois mil anos, César foi assassinado, quase que dá para ouvir a voz dele e ver sangue manchando o chão...
Roma é, para mim, uma fonte inesgotável de sensações e de recordações!
Desde a emoção e aquela sensação de falta de ar provocada pela primeira vez que se olha para a "Capela Sistina" com o seu tecto indiscritivel, fruto do genial talento de Michelangelo, passando pela sensação de grandeza da Piazza Navona iluminada pelo trabalho de Bernini na "Fontana dei Quattro Fiumi", sem esquecer as inumeras igrejas e capelas com altares de rara beleza, desde Santa Maria Maggiore a San Pietro FuoriMuri até às ruinas imponentes do Coliseu e dos vários foruns Romanos!
Tudo em Roma transpira a história, a nossa história!
Mas Roma também é a Via Condotti com as suas lojas de marca, e o espectacular café "El Greco",
as escadas da Trinitá dei Monti, o volumoso "Monumento" a Vittorio Emanuel, a célebre Fontana dei Trevi, as "tratorias" dos arredores de Roma, onde se come "La vera pasta", o restaurante "Il picollo Mundo", com as suas paredes decoradas de fotografias de personalidades famosas, do Mundo do Cinema, a Via Venetto, palco do filme " La Dolce Vita" de Felini...
E nem falei do Vaticano...
Por tudo isto e por muito mais que eu aqui não disse: "Arrivederci Roma!!"

Tiber

domingo, abril 01, 2007

Ausencia

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.

Desta vez, a minha ausencia deste espaço tem uma justificação...
Ou pelo menos tenho um motivo...
A saúde às vezes trai-nos quando menos esperamos...
Umas simples análises clínicas de rotina conduziram a toda uma série de testes, exames e ainda mais análises, felizmente já terminados e com um diagnóstico simples: "Anemia Ferropénica ou Ferropriva" resumindo: deficiência (eventualmente alimentar) em ferro...

Mas, enquanto não sabia os resultados, andei um pouco desorientado, desanimado, dificilmente evitava que o pensamento fujisse para os piores cenários, conduzindo a todo um grupo de hipóteses cada uma pior que a anterior... Refugiei-me no trabalho e no conforto de alguns (poucos) amigos e familiares mais chegados...
Isso tirou-me toda a vontade de por aqui andar e pensei até em fechar de vez este espaço...
Por outro lado, pensei na minha vida, no que já fiz, e no muito que ainda quero fazer, não quero passar pela vida, quero viver!

Felizmente, tudo acabou... pelo menos por agora...
Mas o susto e a angústia ficam para sempre!

Tiber

sábado, janeiro 20, 2007

Às vezes coisas dentro de nós...

Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Este poema foi publicado, salvo erro em 2002 como parte de "As fábulas" e foi escrito como uma breve Homenagem a Maria de Lurdes Pintassilgo, por Fioma Pais Brandão.
Fioma Pais Brandão, poetisa, tradutora, faleceu hoje aos 67 anos, em Lisboa.
Num curto espaço de menos de dois meses, partiram dois poetas : Mario Cesariny, e agora Fioma Pais Brandão e assim, vai a cultura viva deste país ficando cada dia mais pobre...
Não sei porquê, e apesar de ser um "lugar comum", ao ouvir a notícia da morte de Fioma, veio-me à memória, um poema de uma Brasileira:
Silvia Schmidt:

Quando um poeta se cala
Para sempre e deixa a vida,
Ouve-se a voz dolorida
De um verso levado à vala.

E uma poesia perdida
Vê-se na estrada, sem mala
Para guardar o que fala
E o que sente - sem guarida.

Quando um poeta nos deixa,
Fica uma brecha, uma queixa,
Resta um adeus sem acenos.

O mundo fica mais triste,
E o céu em dizer persiste
Que é Deus nos falando menos.


Tiber


segunda-feira, janeiro 15, 2007

O fim do Natal...

O dia 15 de Janeiro, dia de Santo Amaro, conhecido aqui na Madeira como dia de Varrer os Armários, marca o fim da época de Natal; tradicionalmente é neste dia que se arrumam os enfeites de Natal, que o Menino Jesus sai da Lapinha em Escadinha, para voltar ao seu lugar, na comoda de um dos quartos de dormir, onde ficará em sossego até ao próximo Natal...

O Natal tradicional aqui na Madeira, está cada vez mais distante e a desaparecer rapidamente; que é feito da beleza da "Festa"? Onde está o encanto da "1ªOitava"? Quantos ainda se lembram do "Cantar dos Reis" de porta em porta na noite de 5 para 6 de Janeiro? Quem se recorda ainda dos versos entoados em tom de alegre:
" Eu venho cantar os Reis
à porta do meu vizinho,
não tem nada pra me dar?
Dê-me um copinho de vinho!
E nós bem sabíamos,
e vós bem sabeis
que é no dia de hoje
que se canta os reis
".

E depois da festa dos Reis, lá vinha o Santo Amaro, no dia 15 de Janeiro... e lá iamos nós (os miudos como nos chamavam na altura...) de vassoura às costas outra vez de porta em porta para varrer os armários e claro está aproveitar para comer os últimos Bolos de Mel, as broas de mel acompanhadas com Tim-Tan-Tum... Como é óbvio, a vassoura só fazia parte da encenação...

Mas este ano, (talvez seja da idade que não perdoa), senti saudades do meu Natal... com os meus avós, senti que talvez esta época já não seja a minha, senti que já não me revejo nem vivo esta sociedade de consumo exacerbado e com valores por vezes tão distintos e diversos que não consigo compreender nem aceitar...
Este ano, neste Natal, ao ver pela Televisão, a transmissão da "Noite do Mercado", numa completa descaracterização do que era uma "noite mágica" e agora é mais um produto para turista ver com muito pouco de tradicional e sem aquela espontaneidade que o povo tem quando as festas são genuínas, dizia eu que ao ver tudo isso, senti-me triste, senti que de certa forma estava a envelhecer, não um envelhecimento físico, mas aquele anoitecer mental, aquele frio nas ideias, aquela sensação cruel de me sentir estranho na minha própria terra!

Tiber