sexta-feira, abril 13, 2007

Até amanhã, camaradas...

Eu não sou comunista, nunca votei no partido comunista e confesso que não tenho especial simpatia pelos ideais ou pelas posições defendidas pelo PCP.
No entanto, esta posição, não abafou a minha profunda admiração por duas pessoas, comunistas, que sempre mantiveram uma linha coerente e bem definida nas suas ideias: Álvaro Cunhal e Odete Santos.
Alváro Cunhal era uma mente brilhante, que tinha uma visão muito própria e clara do que queria para o país e não se desviava uma linha daquilo em que acreditava; era um homem verdadeiro, que não escondia a sua posição mesmo que isso lhe custasse alguns milhares de votos... Cunhal era incapaz de prometer baixar impostos e a seguir depois de eleito aumentá-los (onde é que eu já vi isto?)...
A deputada Odete Santos, do Partido Comunista, despediu-se hoje do Parlamento, com um discurso emocionado...
Odete Santos é talvez a última das verdadeiras comunistas, daquelas que não vacilam nas suas convicções, não abdicam do que acreditam nem "metem os ideias na gaveta" .... e Hoje, pela ultima vez discursou no Parlamento; abandona-o porque assim o quer, porque entende que "chegou a hora"... e ao contrário de outros, não acredito que vá "andar por aí" , pois enquanto "houver estrada para andar" ela lá estará, como sempre esteve, do "lado esquerdo" da vida!
Nunca fez tanto sentido a frase dita de forma emocionada "Até amanhã Camaradas!"
Ficou o Parlamento mais pobre, mas Odete Santos saiu da forma que quiz, coerente consigo própria como não podia deixar de ser...

Tiber

sexta-feira, abril 06, 2007

Portugal, um país estranho...

Eu não entendo este país... e muito menos as suas gentes... em primeiro lugar, elegem como o "Maior Português de sempre" um ditador, que nunca ganhou uma eleição de forma livre e democrática enquanto foi vivo... Mas, não contentes com isso, há uns quantos que reunidos num Partido que nem sei o nome ao certo, publicaram em Lisboa (claro que só poderia ser lá...) um cartaz com todas as intenções xenófobas e dando a entender que os estrangeiros estão a mais aqui... esquecendo-se de que também nós somos ainda um povo de emigrantes... Os portugueses nunca foram assim... A xenofobia nunca fez parte da nossa maneira de ser! Porquê agora?

Mas quando alguém reclamou, o tribunal analisou a questão e chegou à conclusão que afinal o cartaz era inocente e sem maldade nenhuma... Ficou toda a gente de boca aberta... então não é que aquilo que aos olhos de todos era uma coisa, afinal era outra?
Como diria meu avô, "Benza-te Deus que ninguém os entende!".

E quando se pensa que já tinha acontecido de tudo, eis que um grupo humorista, que não abdica de intervir politicamente, faz publicar um cartaz satirizando o outro, (o tal que afinal parecia xenófobo e não era).

E não é que alguém mandou retirar este cartaz porque "não estava autorizado"...
Nesta sexta feira santa, ao ver tudo isto, lembro-me de umas palavras ditas há mais de 2000 anos, mas que hoje, aqui e agora, nesta "espécie de país" à beira mar plantado não podiam ser mais actuais
"Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem!"

quarta-feira, abril 04, 2007

Roma

No Blog de uma amiga e colega de longa data, "Mulheres de Atenas", tem uma crónica emocionada de uma recente viagem por ela feita a Roma e Assis. Esse relato lembrou-me a minha própria experiência em Roma, onde estive por razões profissionais durante cerca de mês e meio...
Foram dias inesquecíveis! Roma é das cidades que visitei, a única que me deixa uma sensação do tipo "De onde é que eu conheço isto?"
É uma cidade carregada de história, onde a cada passo se respira a atmosfera da antiguidade, em paralelo com uma cidade moderna e cosmopolita onde em muitos casos, os monumentos nem sempre foram tratados e compreendidos com a dignidade que mereciam, mas onde a "história está lá!" viveu-se ali, entre aquelas muralhas...
Traz-nos uma sensação estranha, pisar um degrau onde há mais de dois mil anos, César foi assassinado, quase que dá para ouvir a voz dele e ver sangue manchando o chão...
Roma é, para mim, uma fonte inesgotável de sensações e de recordações!
Desde a emoção e aquela sensação de falta de ar provocada pela primeira vez que se olha para a "Capela Sistina" com o seu tecto indiscritivel, fruto do genial talento de Michelangelo, passando pela sensação de grandeza da Piazza Navona iluminada pelo trabalho de Bernini na "Fontana dei Quattro Fiumi", sem esquecer as inumeras igrejas e capelas com altares de rara beleza, desde Santa Maria Maggiore a San Pietro FuoriMuri até às ruinas imponentes do Coliseu e dos vários foruns Romanos!
Tudo em Roma transpira a história, a nossa história!
Mas Roma também é a Via Condotti com as suas lojas de marca, e o espectacular café "El Greco",
as escadas da Trinitá dei Monti, o volumoso "Monumento" a Vittorio Emanuel, a célebre Fontana dei Trevi, as "tratorias" dos arredores de Roma, onde se come "La vera pasta", o restaurante "Il picollo Mundo", com as suas paredes decoradas de fotografias de personalidades famosas, do Mundo do Cinema, a Via Venetto, palco do filme " La Dolce Vita" de Felini...
E nem falei do Vaticano...
Por tudo isto e por muito mais que eu aqui não disse: "Arrivederci Roma!!"

Tiber

domingo, abril 01, 2007

Ausencia

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.

Desta vez, a minha ausencia deste espaço tem uma justificação...
Ou pelo menos tenho um motivo...
A saúde às vezes trai-nos quando menos esperamos...
Umas simples análises clínicas de rotina conduziram a toda uma série de testes, exames e ainda mais análises, felizmente já terminados e com um diagnóstico simples: "Anemia Ferropénica ou Ferropriva" resumindo: deficiência (eventualmente alimentar) em ferro...

Mas, enquanto não sabia os resultados, andei um pouco desorientado, desanimado, dificilmente evitava que o pensamento fujisse para os piores cenários, conduzindo a todo um grupo de hipóteses cada uma pior que a anterior... Refugiei-me no trabalho e no conforto de alguns (poucos) amigos e familiares mais chegados...
Isso tirou-me toda a vontade de por aqui andar e pensei até em fechar de vez este espaço...
Por outro lado, pensei na minha vida, no que já fiz, e no muito que ainda quero fazer, não quero passar pela vida, quero viver!

Felizmente, tudo acabou... pelo menos por agora...
Mas o susto e a angústia ficam para sempre!

Tiber

sábado, janeiro 20, 2007

Às vezes coisas dentro de nós...

Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Este poema foi publicado, salvo erro em 2002 como parte de "As fábulas" e foi escrito como uma breve Homenagem a Maria de Lurdes Pintassilgo, por Fioma Pais Brandão.
Fioma Pais Brandão, poetisa, tradutora, faleceu hoje aos 67 anos, em Lisboa.
Num curto espaço de menos de dois meses, partiram dois poetas : Mario Cesariny, e agora Fioma Pais Brandão e assim, vai a cultura viva deste país ficando cada dia mais pobre...
Não sei porquê, e apesar de ser um "lugar comum", ao ouvir a notícia da morte de Fioma, veio-me à memória, um poema de uma Brasileira:
Silvia Schmidt:

Quando um poeta se cala
Para sempre e deixa a vida,
Ouve-se a voz dolorida
De um verso levado à vala.

E uma poesia perdida
Vê-se na estrada, sem mala
Para guardar o que fala
E o que sente - sem guarida.

Quando um poeta nos deixa,
Fica uma brecha, uma queixa,
Resta um adeus sem acenos.

O mundo fica mais triste,
E o céu em dizer persiste
Que é Deus nos falando menos.


Tiber


segunda-feira, janeiro 15, 2007

O fim do Natal...

O dia 15 de Janeiro, dia de Santo Amaro, conhecido aqui na Madeira como dia de Varrer os Armários, marca o fim da época de Natal; tradicionalmente é neste dia que se arrumam os enfeites de Natal, que o Menino Jesus sai da Lapinha em Escadinha, para voltar ao seu lugar, na comoda de um dos quartos de dormir, onde ficará em sossego até ao próximo Natal...

O Natal tradicional aqui na Madeira, está cada vez mais distante e a desaparecer rapidamente; que é feito da beleza da "Festa"? Onde está o encanto da "1ªOitava"? Quantos ainda se lembram do "Cantar dos Reis" de porta em porta na noite de 5 para 6 de Janeiro? Quem se recorda ainda dos versos entoados em tom de alegre:
" Eu venho cantar os Reis
à porta do meu vizinho,
não tem nada pra me dar?
Dê-me um copinho de vinho!
E nós bem sabíamos,
e vós bem sabeis
que é no dia de hoje
que se canta os reis
".

E depois da festa dos Reis, lá vinha o Santo Amaro, no dia 15 de Janeiro... e lá iamos nós (os miudos como nos chamavam na altura...) de vassoura às costas outra vez de porta em porta para varrer os armários e claro está aproveitar para comer os últimos Bolos de Mel, as broas de mel acompanhadas com Tim-Tan-Tum... Como é óbvio, a vassoura só fazia parte da encenação...

Mas este ano, (talvez seja da idade que não perdoa), senti saudades do meu Natal... com os meus avós, senti que talvez esta época já não seja a minha, senti que já não me revejo nem vivo esta sociedade de consumo exacerbado e com valores por vezes tão distintos e diversos que não consigo compreender nem aceitar...
Este ano, neste Natal, ao ver pela Televisão, a transmissão da "Noite do Mercado", numa completa descaracterização do que era uma "noite mágica" e agora é mais um produto para turista ver com muito pouco de tradicional e sem aquela espontaneidade que o povo tem quando as festas são genuínas, dizia eu que ao ver tudo isso, senti-me triste, senti que de certa forma estava a envelhecer, não um envelhecimento físico, mas aquele anoitecer mental, aquele frio nas ideias, aquela sensação cruel de me sentir estranho na minha própria terra!

Tiber

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce, de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,

corre à cozinha mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


Natal, de António Gedeão


António Gedeão, é talvez mais conhecido pela "Pedra Filosofal" ou pela Lágrima de Preta", mas recentemente encontrei este poemaque penso ser dele, no meio de um livro antigo, durante umas "pseudo" arrumações de Natal...
É um poema bem forte, de uma crítica social bem marcada, que retrata toda a personalidade e a força da poesia de Gedeão.
Quanto a mim, ainda me lembro do poeta que me fez gostar de física, pois escreveu talvez o mais bem conseguido dos manuais escolares sobre fisica, pena foi que as sucessivas reformas da Educação esquecessem o que de bom existia nos antigos manuais...
António Gedeão, aliás Rómulo de Carvalho, era brilhante quer quando se assumia como professor e cientista, quer como Poeta...

Um Feliz e santo Natal a todos os que tiverem a paciência de por aqui passar!