sexta-feira, setembro 07, 2007

Até sempre Luciano...

Graças a meu avô, habituei-me desde criança a ouvir ópera, musica clássica em velhos discos de 78 rpm, numa grafonola de corda e depois num móvel com gira-discos e rádio Telefunken, entretanto comprado a prestações como era habitual nessa altura e que segundo ele "custou os olhos da cara"...
Foi graças a meu avô que aprendi palavras como Tenor, barítono, soprano, ópera, opereta, etc...Foi ainda através dele e da música que ouvia, mas principalmente das histórias que me contava, sobre os compositores clássicos, sobre as óperas , que fui aprofundando e refinando o meu gosto nessa área...Aprendi a gostar de Beethoven, Tchaikovsky, Mozart, mas também de Turandot, Madame Butterfly, Carmen, Fígaro, etc...


E foi nessa altura que ouvi alguns dos grandes tenores da época Mario Lanza, e Enrico Caruso...
Anos depois, já meu avô não estava (fisicamente) a meu lado , descobri Pavarotti... e, na primeira vez que o ouvi, lembrei-me das palavras que ele me dizia quando ouvia Maria Callas, Caruso ou Lanza: "Quem canta assim, não canta, encanta!."

Meu avô, penso eu nunca ouviu Pavarotti, nunca teve a felicidade de ouvir aquela voz forte, cheia, potente e ao mesmo tempo melodiosa, tranquila, saida da alma, sem esforço, tão natural que dá a impressão de que qualquer um canta assim... resta-me a fé de que talvez um dia nos juntemos outra vez, aí sim a ouvir Lanza, Pavarotti, Callas....

Que Luciano Pavarotti descanse em paz, mas que a sua voz não se cale nunca...

quinta-feira, agosto 16, 2007

A Festa do Monte

Freguesia de Nossa Senhora do Monte
"A origem desta paróquia vem da fazenda povoada que ali tinha Adão Gonçalves Ferreira, o primeiro homem que nasceu nesta ilha e que era filho de Gonçalo Aires Ferreira (V. pag. 21), o mais distinto companheiro de Zargo na descoberta do arquipélago. Como geralmente acontecia, era uma pequena capela o centro em torno do qual se agrupavam os primeiros povoadores, tendo Adão Ferreira levantado ali pelos anos de 1470 uma modesta ermida, que parece ter tido o nome primitivo de Nossa Senhora da Incarnação, passando depois a chamar-se Nossa Senhora do Monte, devido certamente ás condições orograficas do local, que bem justificavam a nova e apropriada denominação. Outros afirmam que a milagrosa aparição da imagem da Santissima Virgem, que logo começaram a chamar Nossa Senhora do Monte, é que deu origem a que a capela tomasse este nome, que se transmitiu ao sítio e mais tarde a toda a paróquia.
A lenda dessa aparição miraculosa vem narrada, nos seguintes termos, no verso das gravuras que representam a pequenina e veneranda imagem: «Ha mais de 300 anos, no Terreiro da Luta, cerca de 1 quilómetro acima da igreja de N.ª S.ª do Monte, uma Menina, de tarde, brincou com certa pastorinha, e deu-lhe merenda. Esta cheia de jubilo, refere o facto á sua família, que lhe dão deu credito, por lhe parecer impossivel que naquela mata erma e tão arredada da povoação aparecesse uma Menina. Na tarde seguinte reiterou-se o facto e a pastorinha o recontou. No dia imediato, á hora indicada pela pastorinha, o pai desta, ocultamente, foi observar a scena, e viu sôbre uma pedra uma pequena Imagern de Maria Santissima, e á frente desta a inocente pastorinha, que a seu pai inopinadamente aparecido, afirmava ser aquela Imagem a Menina de quem lhe falava. O pastor, admirado, não ousou tocar a imagem, e participou o facto á autoridade que mandou coloca-la na capela da Incarnação, próxima da actual igreja de «N.ª S.ª do Monte», nome que desde então foi dado aquela veneranda Imagem.»"

Fonte: Elucidário Madeirense

O Elucidário Madeirense, foi uma obra criada para comemorar os 500 anos da Descoberta da Madeira, e é uma fonte quase inesgotável sobre a História da Madeira, do seu povo, seus costumes e tradições, e claro está sobre as várias lendas que a cultura popular teima em não apagar da memória...

A Nossa Senhora do Monte é a padroeira da Madeira, o seu dia celebra-se a 15 de Agosto, a lista dos seus milagres em benefício da população local, é imensa; o Monte, está para a Madeira, talvez como Fátima para o País!
Ainda sobre a Nossa Senhora do Monte, não resisto a contar a história, do seu primeiro milagre conhecido e cuja origem remonta aos tempos da descoberta:

" Nos primeiros tempos da colonização da ilha da Madeira, havia uma ribeira de água límpida e abundante rodeada de terras férteis que encantou os portugueses que lá chegaram. Mas um dia um senhor poderoso resolveu ter aquela água só para si e canalizou a fonte para as suas terras. A população desesperada, porque aquela água era imprescindível à sua sobrevivência, resolveu fazer uma procissão à Senhora do Monte, implorando para que a água voltasse a brotar naquela fonte. O milagre aconteceu e a água encheu de novo a fonte, mas em quantidade menor do que no início. O povo utilizou então em seu benefício a ideia do desvio da água e, construindo regos ou cales, levaram a água mais longe, tornando férteis muitos campos e quintas. A ribeira ficou a ser conhecida como a ribeira de Cales e o milagre da Senhora do Monte ficou para sempre na memória popular."

A Fonte ainda hoje existe, no Largo do Monte, cujo verdadeiro nome é "Largo da Fonte", e reza a crença popular que quando dela deixar de brotar água limpa e cristalina, a Madeira desaparecerá nas águas do Oceano...

É neste largo, no largo da Fonte, que se realiza o maior arraial da Madeira, a "Festa do Monte" que tem o seu ponto alto na noite de 14 para 15 de Agosto, com as Romagens e as Peregrinações, e termina no dia 15 com a Procissão; a missa solene, este ano é aguardada com alguma curiosidade, pois será celebrada, pelo novo Bispo da Diocese, D. António Carrilho.

Na Igreja do Monte, encontra-se ainda a sepultura provisória do imperador da Austria, Carlos, que faleceu nesta freguesia a 1 de Abril de 1922, e que constitui uma atracção e um ponto de visita obrigatório de muitos Turistas que nos visitam.
Também é da sua vizinhança, junto à escadaria que partem os Carreiros, e os célebres "Carros de Cestos" numa viagem sempre em grande velocidade até ás imediações da cidade.
Em tempos, existiu um Comboio de Cremalheira que fazia o percurso entre o centro do Funchal e monte, mas hoje em dia apenas restam algumas fotografias e um edifício degradado do que foi a primeira 8e única) estação terminal de comboio da Cidade do Funchal.

O Monte, é pois um dos lugares mais bonitos e emblemáticos deste "calhau", pena é que muitas vezes seja desprezado e esquecido principalmente por quem devia ter como supremo interesse o acautelar aquilo que na realidade constitui o nosso verdadeiro património e reflecte o sentir e o pulsar de um povo... esquecer as nossas tradições, "afogar" na modernidade as nossas raízes, desprezar a memória colectiva de uma sociedade é o primeiro passo para o sua desagregação...

Ainda vamos a tempo... Haja vontade...

terça-feira, agosto 14, 2007

Pobres e Mal-Agradecidos...

Ciganos

Tudo o que voa é ave.
Desta janela aberta
A pena que se eleva é mais suave
E a folha que plana é mais liberta.

Nos seus braços azuis o céu aquece
Todo o alado movimento.
É no chão que arrefece
O que não pode andar no firmamento.

Outro levante, pois, ciganos!
Outra tenda sem pátria mais além!
Desumanos
São os sonhos, também...

Miguel Torga


Este país é estranho...
Estranho e mal-agradecido...
No dia 12 de Agosto, se fosse vivo, Afonso Rocha, mais conhecido por Miguel Torga, faria 100 anos!
A data foi comemorada na sua aldeia natal, com a pompa e circunstância merecidas, mas curiosamente sem a presença de um único membro do Governo, sem uma única palavra de ninguém, sem uma menção da Ministra da Cultura... Apenas o Presidente da República se manifestou... ah, e Manuel Alegre, se calhar o último dos verdadeiros Socialistas...
Torga é um dos maiores poetas contemporâneos, como homem, foi sempre um lutador pela Liberdade, com várias obras apreendidas e censuradas e chegou até a ser preso...Premiado várias vezes, recusou receber prémios no Estado Novo... Não merecia esta desconsideração...

Curiosamente, nos programas do 12º ano, acho que Miguel Torga foi esquecido já há algum tempo... Como é grande um país em que nos currículos estudantis não cabe um poeta como Miguel Torga! Se calhar porque outros poetas maiores se "levantam"... é que senão for por essa razão, então é porque a estupidez assentou arraiais no Ministério da Educação...
E assim, vamos continuar a ser pobres... Pobres e mal-agradecidos!



Tiber

sexta-feira, agosto 10, 2007

Jornalistas e Jornalismos...

Ás vezes, quase me sinto tentado a dar razão ao "pai" Alberto...

Alguma comunicação social da Madeira parece andar de cabeça perdida... Alguém acredita que a reportagem de uma estação televisiva, sobre o Rali Vinho Madeira, no dia de abertura da Prova, abriu criticando a Organização, por ter convidado duas equipas femininas para conduzir os carros 0 e 00, com única justificação de que eram Mulheres? Depois lá tentaram disfarçar dizendo que tinham pouca experiência, etc esquecendo-se que ambas já tinham entrado várias vezes como pilotos e co-pilotos em várias provas regionais e nacionais, participam regularmente em provas de pista e que tinham desempenhado exactamente a mesma função no ano passado, sem qualquer problema?
Mas também, se não fosse assim ninguém se lembrava de quem tinha feito essa reportagem... Aconselho a todos, os que gostam de Ralis (e os que não gostam ...) a ver a reportagem feita pelo EuroSport, um exemplo de profissionalismo e de qualidade, sem polémicas, destacando a competição, a beleza das nossas estradas, o bom comportamento do público, etc...

Para quem critica o subsídio dado ao Rali pelo Governo Regional, talvez baste ver aqueles 30 minutos de reportagem, que passaram ( e vão ser repetidos mais duas ou três vezes) em horário nobre no Eurosport para mudar de opinião...
Mas isso são contas de outro Rosário, e eu sou suspeito porque há muitos anos que acompanho por dentro o Rali Vinho Madeira...

Mas, como nem só de Rali vivemos nós, ontem de manhã, os noticiários de uma Rádio, abriram com a notícia de "mais um incumprimento de uma Lei da República por parte do Governo Regional"!
E em seguida, desenvolviam dizendo que o Governo Regional se recusou a aplicar a lei das Carreiras da Função Pública, que reduz drásticamente o número das carreiras existentes.
Pronto,pensei eu, o AJJ tinha "atacado" outra vez e voltava a desafiar tudo e todos, naquela política estéril que a nada conduz...E lá íamos nós, os "desditosos" filhos desta terra pagar outra vez as "favas" de uma guerra inútil..

Um pouco mais tarde veio a surpresa, por esclarecimento da própria Assembleia da República (entidade insuspeita, neste caso): A lei nem sequer ainda tinha sido aprovada!
O Governo Regional, limitou-se a responder de forma negativa, a um pedido de parecer que tinha sido solicitado, no âmbito das suas competências, porque entende (e neste caso, bem!) que existem carreiras específicas da Região que têm que ser devidamente acauteladas... Aliás, contra esta fusão das carreiras, já se manifestaram quase todos os partidos da oposição e o sindicato da Função pública...
Qual será então o interesse em dar este tipo de notícias? Provocar o confronto? Irritar o Governo Regional? Agradar ao Poder Central?

Ou será pura e simplesmente incompetência???


Tiber

sexta-feira, julho 27, 2007

Tristeza(s)

Esta semana, a Assembleia Regional da Madeira, deu mais um daqueles tristes espectáculos a que já nos acostumou...
A casa que devia ser um exemplo de Liberdade e Tolerância, tornou-se outra vez num "antro" de insultos, ofensas, ameaças, que foram desde o PSD até ao PCP, e que acabam, principalmente com a regularidade em que se repetem, por dar um triste exemplo e contribuir para o descrédito que a política (e os políticos) cairam...
Nestas alturas, sinto-me envergonhado de ter ido votar, de ter contribuido para eleger algumas daquelas pessoas...
Estive muitos anos sem votar...Votava apenas para o Presidente da República, porque entendia que (ainda) era quem mais credibilidade trazia à Democracia e á própria política... Nas últimas eleições, (as eleições regionais antecipadas) resolvi ir votar, mais em protesto pelo facto de se estar a "colar" rótulos aos madeirenses do que por convicção, sempre me recusei a "fazer figura de carneirinho"...Mas, agora, depois desteas cenas deploráveis, não me revejo em nenhuma daquelas "alminhas" como diria meu avô...
O meu voto foi de protesto... Protesto contra o Governo Central por nos tratar como "Portugueses de segunda" por maioritariamente termos uma opção política diferente... Protesto contra o Governo Regional pela incapacidade manifesta de encontrar linhas que unam os madeirenses, e em vez disso priveligiar as fracturas tentando muitas vezes a teoria do "inimigo externo"...
Protesto ainda contra uma oposição regional que a única coisa que sabe fazer é "meter o rabo entre as pernas" quando as coisas aquecem, não percebendo que o único caminho é a seriedade e a honestidade mental, uma vez que para pior... já basta assim...

As palavras de Manuel Alegre, superiormente cantadas por Adriano e que eu ouvia à "socapa" em casa de meu avô, continuam actuais... O contexto pode ser bem diferente, mas o sentido e a sua força, permanecem na mesma:

....
E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Excerto da trova do Vento que passa (Manuel Alegre)


Valerá a pena votar em próximas eleições?
É que eu posso ter "cara de palhaço", vestir "roupa de palhaço", mas estou farto destas palhaçadas!

Tiber

terça-feira, julho 24, 2007

De volta...

Voltar a casa é sempre um descanso...
Depois de três semanas "andando por aí", voltar ao nosso cantinho, é sempre uma benção...
Até das "loucuras" da Niki já estava com saudades

Niki

Já tinha saudades de ao sair de casa de manhã, cumprimentar o vizinho, trocar duas palavras rápidas com o carteiro "Hoje não tenho nada para si... mas viu a caixa? Deve estar cheia, com tanto tempo fora..."! Sempre simpático e delicado o Sr. Jorge, carteiro desta zona há pelo menos 10 anos...

Já tinha saudades do cheiro a mar, do sabor a maresia, da humidade sufocante que "entra até aos ossos", de abrir a janela, e ver os barcos no porto do Funchal, de repousar a vista na baia, de ouvir ao longe o sino da igreja do Livramento, logo seguido do da igreja da Boa Nova, mesmo aqui ao lado...

A "minha " vista do Funchal

No fundo, são estes pequenos pormenores que "alegram" a nossa vida...

Apesar dos desvarios por vezes meio(? meio é favor...) tresloucados do Presidente do Governo Regional, das obras mal feitas e acabadas "à pressão", dos problemas financeiros, das dúvidas, das confusões, a Madeira continua a ser a minha "terra", o meu Porto de Abrigo, é aqui que tenho as minhas raízes, é aqui que eu pertenço, é aqui que eu me sinto bem; felizmente ainda não fui atraido pelo fascínio centralizador, nem pelo "canto da sereia" da antiga "Capital do Império"...

Tiber

sábado, julho 14, 2007

E vão passando os dias...

... mas sem que eu me sinta completamente de férias... Não sei porquê, mas este ano falta-me qualquer coisa... Não consigo desligar completamente do trabalho... Não consigo libertar-me por completo, não consigo atingir aquele "estado de despreocupação total" que limpa a mente e descansa o corpo...
Continuo a andar por aí... Quase sempre ao sabor do vento e da maré...Muitas vezes com a História em fundo... ou como desculpa, sei lá...

A nossa História é fértil em lendas , uma das que me lembro é a de D.Fuas Roupinho, primeiro Almirante Naval Português, e das marcas das patas do cavalo, no rochedo sobranceiro à Nazaré; foi a curiosidade sobre esta personagem (D.Fuas Roupinho), que me levou a Porto de Mós, vila da qual o fidalgo foi alcaide, nomeado pelo próprio D.Afonso Henriques...

Porto de Mós supreendeu-me, em primeiro lugar, pelo tamanho e pela quantidade de Comércio que apresenta, prova de que o Pais não é mesmo só Lisboa, por muito que nos queiram fazer crer...

Castelo de Porto de Mós

E maior foi a surpresa, ao ver o Castelo de D.Fuas Roupinho, que foi restaurado e adaptado recentemente a museu, mas sem ter sido estragado ou descaracterizado por intervenções de gosto duvidoso... O aproveitamento que a Câmara de Porto de Mós fez do seu principal Monumento, é um exemplo que devia ser seguido noutros monumentos deste país... a remodelação do espaço interior, aproveitando as ruinas e os recantos para a instalação de um museu, é digna de realce...A exposição em si, não é nada de extraordinário... surpreendeu-me pela visita ser gratuita, e ao que consta a Câmara de Porto de Mós, não tem nenhum "Berardo" como financiador...
Contrasta este facto, com a Sé de Évora, cuja visita à Basilica, é paga, o que a mim me choca bastante, não devia a "Casa de Deus" estar aberta a toda a gente?

Sé de Évora

Que fosse pago para visitar o Museu e os Claustros, sou o primeiro a apoiar, agora a Basílica???
No entanto, apesar do 1€ que custa para visitá-la, a espectacularidade da Sé de Évora, vale bem esse preço... O princípio é que está errado



Tiber